Cancelei minha assinatura de jornal impresso. Confesso que sinto um pouco a falta da edição em papel, especialmente quando quebro um copo e fico procurando onde enrolar os cacos. Revistas nunca mais. Troquei por blogs. Meu dicionário virou base para o PC do escritório, bem como restos de uma enciclopédia que, em algum tempo remoto, muito me serviu. Hoje é tudo virtual. Um clique, uma definição; dois ou mais, uma pesquisa. Imagens estáticas ou em movimentos, tudo ao toque dos dedos. Um mundo novo que supera o rádio e a televisão, pois transmite não sons nem imagens, mas sonhos errantes no ar*.
Estou me tornando excessivamente virtual. Não recebo quase mais nada pelo correio, apenas multas de trânsito. Faturas são debitadas na minha conta corrente e, caso deseje conferir, pesquiso no aplicativo do banco, loja, operadora. Não tenho mais agenda de compromissos, uso a do celular. Ainda deixo bilhetinhos presos na geladeira ou no painel do escritório. Caderninho de endereços, troquei faz anos. A memória do aparelho sempre haverá de ser melhor do que a minha. Só sei de cor os telefones dos filhos e mais uma meia dúzia de números utilizados há muito.
Comecei a escrever com caneta em cadernos. Bic azul. Na sequência passei para máquina Olivetti manual; depois, elétrica. Até chegar ao computador de mesa. Como a evolução não para, redijo, neste momento, em um laptop. Ainda tenho livros nas prateleiras. Gosto do cheiro, das cores e do formato. Lamber o dedo e virar a folha, passar a mão, anotar e rabiscar. Prefiro os de capa mole, são mais fáceis de segurar na cama e no sofá. Leio bastante na tela plana, mas não abro mão do papel impresso quando se trata de romance. Leituras mais longas parece que não combinam com a superfície dura do tablet.
Da mesma forma, meus contatos passaram a ser muito mais virtuais. Pelas redes sociais, acompanho a vida de amigos de longe e perto. Participo minhas conquistas (poucas vezes, as derrotas) e minhas alegrias em tempo real. Tenho mais de 300 amigos virtuais. Vez por outra dou de cara com alguém comentando minhas postagens e nem me lembro quem seja.
Meu mundo real, tem bem menos do que 300 amigos – e são poucos os inflamados ou palpiteiros. Ao contrário do virtual, onde todo mundo discursa, mete o bedelho e xinga de imbecil. Ofendem no macro sem pensar no micro. Eu apanho sempre, se não de uns, com certeza de outros.
Assim, entre o mar e o rochedo, afundo meus ideais de tolerância num copo de Campari no bar – onde o cardápio também mudou para virtual. Na confraria da sede, os amigos têm meu aval para palpitar sempre. Bater, nunca!
*Rubem Braga, em O telefone.
Imagem gerada por I.A.
