A mosca nossa de cada dia

Tenho horror de mosca. Mais do que de mosquito, barata ou camundongo. Esses dois últimos sabem o seu lugar. Nunca vi algum deles disputando comida com humanos. Só em filme trash. Eles têm medo da gente. Fogem, se escondem. Agem na calada da noite. E como bem dizem por aí: o que os olhos não veem o coração não sente. Já os outros dois concorrem para o prêmio do mais abusado do dia, todos os dias do ano. Para mim, a mosca é a campeã das campeãs. Quanto mais você tenta acertá-la, mais ela se diverte rodopiando no ar, pousando na sua cabeça, fazendo caretas, rindo e tratando você como um ser inferior. E, nessa luta insana, pode até acabar engolindo uma. Que nojo!

Sabiam que elas tem seis patas e que as usam para sentir o gosto do que pisoteiam? Assim, avaliam se vale a pena comer. Como não têm dentes para moer os alimentos, só podem ingerir líquidos ou pastas. E adivinhem só como elas fazem para amaciar a comida do nosso prato. Nem sei se devo revelar. Eca! Bom, vou dizer apenas que elas fazem uma mágica naquele pedaço de picanha que você deixou esquecido sobre a tábua, enquanto foi repor cerveja no copo dos amigos e no seu. Só assim podem sugar sua parte no churrasco — depois da  transformação.

Aquelas seis patinhas que pousam no coco do cachorro são as mesmas que pousam, depois, no seu pudim. Só isso já bastaria para odiá-las, mas ainda tem a picanha. Aí eu fico me perguntando: como pode um mesmo ser apreciar merda e pudim? Que droga de paladar é esse? Enfim, cada um com o seus próprios gostos. Enquanto as moscas se divertem na latrina, as abelhas sugam o néctar das flores, para nos proporcionar o mel. E esse mesmo mel é também foco das malditas moscas. Mantenha o pote bem fechado.

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