A perturbação do domingo

Acordo e penso que morri.

Ou fiquei surda.

Nada se move no meu mundo. Nenhum som. Nenhum ruído na vizinhança, nem um latido. O motor da geladeira — sempre tão saliente — também não deu o som da graça nesta calma manhã de domingo. Os carros e as motos circulam longe daqui. Até os doentes se esqueceram de adoecer. As ambulâncias ainda não despertaram. Só o tilintar da minha xícara contra o pires. E o som da minha mastigação direto dentro dos meus ouvidos, de um lado e de outro.

Algo de anormal está acontecendo. Acho que todos do bairro foram abduzidos enquanto eu dormia. Será que os alienígenas têm uma missão especial para mim e por isso me pouparam? Já não tenho ânimo para grandes desafios na Terra. Preferia ser convidada a explorar outros pagos a bilhões de anos luz de distância daqui. A geladeira estala e me tira desse delírio. Escuto, muito ao longe, alguns motores de automóveis. O vento movimenta levemente a porta principal do apartamento, como se alguém desejasse entrar. O dia está claro, mas uma garoa molha as calçadas desde ontem. A feira de artesanato  do parque deve estar vazia. Com esse chuvisco, é certo que nem todas as bancas foram montadas. Só algumas, confiantes na melhora do tempo e na chegada de mulheres, em busca de pathworks para enfeitar seus lares. Com o sol virão homens, mulheres, gays, crianças e cachorros. Tocadores de música, pipoqueiros e indígenas. As vozes da feira a quebrarem o silêncio do domingo.

Aos poucos, vou tentando sair da inércia. Termino o café e, novamente, a ausência de ruídos me preenche por inteira. Posso mandar que meu Echo toque música, ou que me passe a previsão do tempo, ou que me fale as notícias do dia. Posso ligar a televisão e assistir a um filme, ou qualquer outro programa barulhento. Mas o momento me inspira escrever esse texto, antes de retomar a leitura de um dos três livros que se revezam diante de meus olhos há dias. Um deles fala de guerra, bombardeios noturnos e silêncios pesados pós explosões. Outro relata a vida de uma mulher que sempre lutou contra a submissão. E o terceiro, mais leve, é uma coletânea de contos e crônicas. O sossego inusitado desta manhã me fez pensar nas calmarias pós apocalípticas, tão bem descritas em livros e demonstradas nas telas.  Determinados silêncios são mesmo perturbadores.

2 comentários em “A perturbação do domingo”

  1. Ah o precioso e profundo som do silêncio…tão necessario e tão raro que nos causa espantosa estranheza.
    Por mais manhãs pós apocalípticas!
    Boa leitura,Zuzu

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