Encerrado meu 68* ano de vida, lhes digo, caros leitores, que não estou gostando desse tal envelhecimento. Apenas aprendo a conviver com ele, sem deixar que vire um relacionamento tóxico. Afinal, melhor envelhecer, né? A saúde física e mental anda bem. O abalo maior é a falta de colágeno e o excesso de gordura mal localizada. Umas partes do corpo desandam, outras incham. E a gente vai se remendando e se camuflando. Uma roupa que disfarça um desagrado, outra que realça o que ainda presta. Uns procedimentos estéticos aqui, um investimento maior ali, enquanto ainda tem jeito. A aceitação é um processo lento porque é difícil. Ainda estou na fase dos disfarces e remendos. Tentando me redescobrir , procurando benefícios onde parece só existir prejuízo.
Invisto no cérebro, que também já dá sinais de cansaço. Raciocínio mais lento. Dificuldade para aprender coisas novas. O que antes era automático, reflexo puro, hoje precisa ser pensado, elaborado. Então, me lanço desafios para vencer essa preguiça mental que me persegue amiúde. Novos cursos, novos jogos, leituras diversificadas. Também convivência com pessoas menos da minha bolha, com hábitos diferentes. Gente mais nova, gente mais velha, mais rica, mais pobre, mais intelectual, com menos cultura. Tudo para fazer o cérebro não encaixotar antes do tempo. Por ora, o que mais me preocupa é a falta de colágeno e de neurônios.
A visão jamais voltará a ser a mesma, seja qual for o grau das lentes dos óculos. As juntas dos dedos jamais voltarão ao seu tamanho, ainda que eu trate da dor. As articulações nunca mais terão a mesma mobilidade, apesar dos paliativos que os exercícios representam. Mas a audição continua excelente! O que muitas vezes é um problema, porque desenvolvi um gosto especial pelo silêncio. Os grandes prazeres se reduziram muito. Em compensação, aprendi a me alegrar por pouco. Descobri pequenos deleites em coisas que sempre existiram, mas que não me chamavam a atenção antes. Ouço músicas mais variadas e me interesso por documentários e filmes sobre fatos reais. Tenho mais curiosidade sobre a vida e menos sobre a morte.
Iniciando o ano 69, tenho consciência de que amanhã poderá ser a última vez. Não é um pensamento obsessivo e mórbido, mas, sim, uma grande dose de lucidez. Nesta fase da vida, tudo ou quase tudo pode acabar em um sopro. Se não, talvez esteja vivendo com independência e alegria a próxima década, e até alguns anos mais. São tantos os fatores determinantes do envelhecimento saudável, que não se pode descartar nenhuma probabilidade. Faço a parte que me cabe, mas também conto com a genética e com a “sorte”. A “sorte” de ter boas condições financeiras, plano de saúde e acompanhamento médico, odontológico, estético, funcional e psicológico de qualidade. Isso não é para muitos. Ainda sou privilegiada por ter uma família unida e amorosa, e amigos que sinto que me querem bem de verdade.
Meus dias têm sido uma feira de variedades. Uns horríveis em que o espelho me destrói, ou que a saúde me cobra os excessos. Outros, de tolerância com minhas rugas, cicatrizes e gorduras mal localizadas. E orgulho da minha história e da administração do meu envelhecer. Uns dias são agitados como o Twister no parque de diversões; outros, monótonos e sem graça, como piada de norte-americano. Sou amiga e boa companheira, mas, às vezes, sou péssima companhia para mim mesma, imagino que até para quem me ama. Outros dias me pego cantando e dançando sozinha no meio da sala, feliz da vida, como se tivesse vinte e poucos anos. Então, está tudo certo. Não há longevidade sem um preço a pagar. Faço como o cachorro, que lambe a ferida e segue o caminho.
Foto do acervo pessoal
Texto mal configurado porque estou longe do computador. Quando voltar para casa, dou uma melhorada.

Bem isso Zu, ainda por cima, escrito de forma delicada. Bjs, Silvia Rolim
Obrigada pela leitura. Beijo