Tudo será como antes

Me sento à mesa de algum lugar 
Falando coisas só por falar 
Adiando a hora de te encontrar

 

Toquinho, Vinícius e Carlinhos Vergueiro,

 

em Por que será?

 

Ela já passara dos quarenta anos, quando perdeu seu grande amor, para uma mulher mais jovem, com mais viço e peitos firmes. Esta perda tornou-a uma mulher amarga, sem fé no amor. Andava triste e solitária; sentia-se velha e feia. Para elevar sua auto-estima, uma amiga solteira fez com que ela entrasse num site de relacionamentos. Não custava tentar. Se não arranjasse um namorado, poderia, pelo menos, conversar, se distrair e sentir-se menos abandonada.

 

Logo no início, surpreendeu-se com a repercussão de seu perfil. Recebia muitas mensagens de homens que queriam conhecê-la melhor. Ficou entusiasmada com o sucesso. Sentia-se vingada com o assédio dos rapazes mais jovens. Depois de algumas conversas, resolveu que precisava sair da casca. Solidão nunca mais. Saia todos os fins de semana. Teve vários relacionamentos, alguns muito rápidos, outros, nem tanto. Mas nenhum namorado. Nem queria. Depois de tantos anos com o mesmo companheiro, estava achando ótima esta variação.

 

Havia, entretanto, um homem que a intrigava. Era o único que não queria encontrar com ela. Já teclavam há mais de um ano. Falaram-se no celular várias vezes. Moravam no mesmo bairro. Ele parecia saber tudo da vida dela. E ela, nada da vida dele. As fotos dele eram de longe, sem rosto. Exibia um belo corpo praticando esportes. Dizia-se livre e regulava de idade com ela. Parecia o homem perfeito. Educado, carinhoso, inteligente e bonito. Quando fez um ano da primeira vez que se teclaram, ele mandou entregar um buquê de rosas na casa dela, com cartão manuscrito. Até a letra era bonita.

 

O mistério persistia e as amigas todas tinham palpites sobre o príncipe dela: ele não existe, dizia uma, é só um perfil; ele não tem as pernas, dizia a outra, por isto não quer que tu o conheças; as fotos são do neto dele, deve ter uns 89 anos, completava a terceira. E, solidárias ou invejosas, desafiavam a amiga a exigir um encontro. Ela, irritada com tanta interferência e desconfortável com a situação, decidiu cobrar dele algumas respostas. Afinal, se gostava tanto dela, se já a conhecia de vista, se entendiam-se tão bem no mundo virtual, o que faltava para que ficassem frente a frente?  O que ele tinha a esconder – era cego, paralítico, muito velho ou estava só zoando com a cara dela? Tudo em vão, ele nada respondia. Preferiu sumir.

 

Ficaram meses sem teclar, sem falar ao telefone. E ela sofreu muito. Era seu melhor amigo, com quem dividia todas as suas emoções ao final de cada dia. Não iam dormir sem se falar. Comentavam todos os assuntos, desde o clima até os acontecimentos políticos. Sentia muita falta dele. Deixou alguns recados, mas ele não respondeu. Morreu, diziam as amigas. Ninguém respeitava sua dor.

 

No dia de seu aniversário, chegou um buquê de rosas. No cartão, ele a convidava para teclarem, e marcava a hora. Ela, pontualmente, entrou no site. Ele se dizia chateado com a insistência dela em se conhecerem. Achava que era bom do jeito que era e temia que ela se decepcionasse. Se eles se encontrassem, nada mais seria como antes. Ela garantiu a ele que não se importaria com qual fossem seus defeitos, continuaria a querê-lo, ainda que fosse feio, doente, ou com algum defeito físico. Enfim, marcaram o dia e o local!

 

Ansiosa, ela chegou uma hora e meia antes. Sentou-se numa mesa de canto, discreta. Pediu um chope. Bebeu de um só gole. Pediu outro. Fez alguns rabiscos num guardanapo. Ajeitou o cabelo. Puxou assunto com o garçom. Cruzou e descruzou as pernas uma dezena de vezes. O olhar fixo na porta de vidro. Mais um chope. Tentava imaginar que tipo de homem entraria por aquela porta. Mais um chope. Nada seria como antes, ele dissera. Olhou o relógio e pediu o quinto chope. Girava as rodelas sobre a mesa, pensativa. Nada seria como antes. Quando faltavam dez minutos para a hora combinada, levantou-se apressada, enfiou o dinheiro no bolso do garçom, e saiu rápida, de cabeça baixa, sem olhar para os lados.

 

 

 

Texto publicado em Moraes da história, Ed. Bestiário, 2012.

 

Imagem gerada por I.A.

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