A vida… sombras que vão e sombras que vêm vindo.
O tempo… sombras de perto e sombras na distância
– vem,o tempo quer a vida!
(Vinicius de Moraes)
Luciana trazia o filho pela mão. Era um lugar totalmente estranho para ele. Uma sala grande, com muitas cadeiras de plástico, dispostas como em um cinema. No lugar da grande tela, uma pequena televisão que mostrava letras e números. Bem na frente, um balcão, onde algumas moças com cara de sono conversavam baixinho. Acomodaram-se na terceira fila, de onde o garoto, assustado e encolhido, espiava por cima do ombro dela o homem que estava do outro lado da sala, duas fileiras mais atrás. Uma figura imponente, que despertou na criança admiração instantânea. Ao lado do homem, uma mulher magra, sem graça, com cabelos curtos levemente encaracolados; em nada se parecia com sua mãe, que tinhas seios fartos, um colo macio, e cabelos longos como os de uma artista de novela. O casal ignorou mãe e filho desde que entrara na sala. O que só fazia aumentar a ansiedade do menino, que imaginava a voz dele pronunciando seu nome a qualquer momento. Chegava a sentir seu hálito e o calor do seu abraço. Há muitos anos vinha fantasiando aquele encontro.
Oscar tinha sido intimado a assumir a paternidade daquela criança, então com nove anos. Convicto de nunca se ter relacionado com mulher de nome Luciana, exigiu o teste que estavam ali para realizar. Tinha certeza de que o pesadelo estava prestes a se acabar. Sua vida voltaria ao normal. Cuidaria da única família que desejava – soubera da gravidez da esposa há poucos dias – e terminaria seu Mestrado, para, enfim, realizar o sonho de dar aulas em uma Universidade. Aquela mulher surgira há pouco mais de um mês, como uma rajada de vento, que entra, sem aviso, por uma janela esquecida aberta, tirando tudo do lugar. Oscar era metódico e precisava recuperar sua paz.
Luciana ficou perplexa ao deparar-se com Oscar no laboratório. Não viu sequer um resquício daquele estudante com quem saíra tantas vezes num breve período da juventude. O homem meio calvo, aparentando mais idade do que deveria ter, sisudo e vestido de maneira tão formal denunciava uma vidinha medíocre e conservadora. Nada a ver com o jovem sensual da cabeça povoada de fantasias. Um verdadeiro viajante do tempo, com quem vivera uma fogosa aventura. E chegar para fazer o teste de DNA acompanhado da esposa parecia um ato de muita fraqueza.
Definitivamente, aquele não era o Oscar de quase dez anos atrás. Haviam se conhecido na noite. Frequentavam os mesmos lugares e sempre que se encontravam terminavam juntos. Divertiam-se muito, mas nunca pensaram em tornar a relação mais séria. Pouco sabiam um do outro. Bastava o sexo gostoso e a boa companhia nas baladas da cidade. A aventura foi intensa, porém curta. Quando Luciana descobriu a gravidez, já não se encontrava com ele há algum tempo. Não conseguiu se imaginar procurando Oscar pelas noites para dar a notícia. Com recursos financeiros e apoio da família, decidiu que o filho seria só seu. E assim foi, até o menino entrar para o colégio. Depois de dois anos de pressão, a mãe resolveu correr atrás do prejuízo. Explicou ao filho que não seria fácil encontrar o pai, pois há anos haviam perdido o contato, mas ia se esforçar para satisfazê-lo.
Passou para a amiga advogada os únicos dados que possuía: nome, sobrenome, faixa etária e provável profissão – conforme a faculdade que ele cursava na época. Como o nome não era dos mais corriqueiros, foi facilmente encontrado. Ainda residia na mesma cidade. Luciana ligou para ele e identificou-se, lembrando-o do romance de anos passados. Ele disse nunca ter conhecido nenhuma Luciana, e que nunca havia frequentado os lugares que ela mencionara. Quando ela lhe falou da criança, teve uma crise de riso e a taxou de louca, antes de desligar. No dia seguinte, insistiu e telefonou outra vez. Foi atendida pela esposa, que, injuriada, a xingou de vagabunda. Não restando alternativa, a advogada solicitou que ele fosse oficialmente intimado.
Agora estavam lá. Cada um ao seu modo esperando pelo final feliz.
Quando saiu o resultado do exame, Luciana não se surpreendeu. Só poderia ter dado negativo. Definitivamente, aquele não era o Oscar de quase dez anos atrás!
Texto publicado em Moraes da história, Ed. Bestiário, 2012.
Imagem gerada por I.A.
