Fomos criados em uma família onde religião não tinha a menor importância. Nosso pai se dizia ateu, embora se traísse em certas atitudes. Apreciava algumas tradições cristãs, e se quedava para preceitos espíritas. Nossa mãe dizia que éramos católicos, embora ninguém seguisse os dogmas ou frequentasse igreja. Ela ia à missa uma vez ou outra, em datas específicas, como pretexto para se arrumar e sair de casa, ver amigas e conversar assuntos de mulher. Era uma época em que a opinião alheia contava muito, logo, fomos batizados e encaminhados para a primeira comunhão. Desde então, nunca mais comungamos.
Em casa, havia uma coleção que contava a história da criação do mundo pela visão católica. Eu li aquilo e fiquei horrorizada com o inferno, o purgatório e os castigos de Deus (hoje costumo ficar horrorizada com a omissão dEle). Afinal, que diabos de Deus era aquele?
Sempre fui a mais rebelde da família. Quando me recusei a fazer a primeira comunhão, a mãe teve um xilique. Então, despejei meus questionamentos: “Por que devo contar a um homem estranho meus supostos pecados? Como pode um bebê já nascer pecador? Que tanto poder é atribuído a um padre para perdoar as faltas alheias? Prefiro me entender diretamente com esse estranho Deus.” Ela terminou me vencendo e fiz a comunhão tardia e contrariadamente. Eu tinha treze anos e a cabeça fervilhando de perguntas.
Apesar de não seguir nenhuma religião, sempre tive fé e gosto pelos templos. Imagino-os sempre como um lugar de paz. Ainda jovem, gostava de entrar na Igreja quando o padre não estava. Era meu lugar de tranquilidade. Ali ficava por um tempo, relaxando, apreciando as imagens, conversando com Deus e comigo mesma, refletindo sobre o bem e o mal e pedindo proteção. Já na fase adulta por inteiro, um problema de saúde me aproximou do espiritismo. Bem mais tarde, outro problema de saúde na família me afastou definitivamente. Mas ainda gosto de entrar em uma casa espírita; me sinto confortável. É um lugar de acolhimento que, como o templo católico, me transmite paz e me leva a momentos de reflexão.
Nunca precisei de um ser superior me fiscalizando para que eu praticasse o bem. O bem e o mal estão no caráter e religião nenhuma muda o caráter de ninguém. Após décadas vividas, sempre com interesse em observar o comportamento humano, percebi, e ouso dizer, que as pessoas mais religiosas são as mais pecadoras — via de regra. Precisam da religião para receberem o perdão divino (que chega por um intermediário humano), porque, na maioria dos casos, o perdão da sociedade é impossível. Como toda regra, há excessões.
Tenho convicção de que não nos fez falta a tal da religião, visto que somos, meus irmãos e eu, pessoas dignas e confiáveis. Do mesmo modo que fomos criados, criei o filho que me coube: sem dar importância para a religiosidade. Mostrei meus valores e lutei para que fossem os dele. Só foi batizado para que os padrinhos sentissem o peso do compromisso; meu irmão sequer batizou os dele. Daí para diante, foi livre arbítrio. E nunca me perturbei com as escolhas dele. Sempre confiei no exemplo e na genética.
Tudo o que tenho visto acontecer a nível global, por influência ou determinação de religiões, faz com que acredite ter estado o tempo todo no caminho certo. Mais caráter e empatia, é só disso que o mundo precisa.
Texto inspirado na foto acima, de Iara Tonidandel.
