Nosso primeiro contato com Pepe foi promovido, há muitos anos, pela prima Andréia. Foi um encontro comum, como qualquer outro. Era gordinho, tinha a pele bem morena e olhos expressivos. Parecia estar sempre feliz. Com o tempo, nosso menino foi se aproximando dele. E construíram uma amizade sincera, cheia de afetuosidade e confidências. Quando nos demos conta, já eram melhores amigos. Um não ia a lugar nenhum sem o outro. Pepe era de boas, sempre disposto. Nosso filho dividia com o amigo, mais do que brincadeiras, também alegrias e tristezas. Podíamos ouvir os diálogos que aconteciam no quarto ou na sala. Parecia mais um monólogo. Um falava e o outro ouvia. Pepe respondia baixinho; só nosso menino conseguia escutar.
Essa amizade durou anos e foi muito saudável. Logo, nos acostumamos com a família aumentada. Para a praia ou para o sítio. Parquinho, cinema, escola. Tínhamos sempre um passageiro a mais. Comia um biscoito e outro ia para a boca do amigo. Raríssimas vezes brigaram. Briguinha de criança. Passava como um vento. Entretanto, se não colaborasse, Pepe ficava de castigo.
Em uma ocasião, um adulto brincalhão resolveu esconder o amigo e dizer que ele tinha ido embora. A tristeza modificou o semblante do menino e as lágrimas começaram a brotar. Arrependido, Carlo abriu o armário, devolveu Pepe e arrumou um desafeto para muito tempo.
A parceria só foi desfeita quando entrou para o colégio. Expliquei que, naquela escola, não haveria tia para cuidar do Pepe enquanto ele brincasse com outros amigos. Ficaria melhor em casa. E, quando voltasse, contaria para ele tudo de bom sobre seu dia na escola de meninos grandes. Ambos sobreviveram bem a essa pequena separação. Depois de alguns meses, Pepe sentou-se na estante do quarto, entre uns e outros livros. Por tempo indefinido, ficou ali, quietinho, cuidando do menino para que nunca se sentisse sozinho.
O garoto cresceu e fez muitos novos amigos. Pepe pode, enfim, descer da prateleira. Tomou banho, teve as roupas remendadas, sofreu uma pequena cirurgia na boca e, hoje, descansa no perfumado armário de toalhas. Vá que outra criança da família precise dele. Estará a postos!
Foto do arquivo pessoal.
