A casa da minha infância era geminada, simples e segura. Ficava num bairro residencial, próximo ao Centro, e íamos a pé até o Mercado Público. As estações de trem e ônibus ficavam há poucos quarteirões. Subindo e descendo uma pequena ladeira chegávamos ao maior parque da cidade. Bem perto de casa era a nossa escola. Morei lá por cerca de 30 anos. Neste período, muitas coisas mudaram. A cidade cresceu e transformou nosso bairro residencial em zona de intenso comércio.
A casa da minha infância foi envelhecendo, assim como as pessoas que ela abrigava. Incontáveis consertos e reformas foram feitos ao longo dos anos. Perdia-se a forma original. Os arabescos dos portões de ferro não resistiram, abrindo espaço para os novos de linhas retas. As janelas, antes de venezianas, ganharam persianas plásticas e grades de segurança. O pátio diminuiu de tamanho, por conta do aumento da família e necessidade de maior espaço fechado. Mas um detalhe permaneceu sempre: as goteiras. Por mais que meu pai reformasse o telhado, elas sempre reapareciam em lugares diferentes, como que a desafiar a lógica da construção. O pai botava a culpa naquele modernismo geminado e no vizinho cujo telhado era mais alto do que o nosso.
A casa da minha infância vive dentro de mim. É parte da minha alma, da minha história. Indestrutíveis na memória, os momentos em família que lá passamos – pai, mãe, irmãos, empregadas, bichos de estimação, amigos, parentes e vizinhos. Brigas e brincadeiras. Carinhos e desafetos. E a famigerada goteira do meu quarto, que eu temia fosse inundar a casa e nos matar a todos afogados quando o balde transbordasse. Noites de vigília escutando o som ritmado do pingo d’água. Na adolescência, desejava muito que o sobrado fosse vendido para uma construtora. Que fosse demolido e levantado em seu lugar um prédio moderno de pastilhas na fachada. Tinha certeza de que jamais sentiria saudades daquele lugar. Como o tempo e a emoção mudam nossa razão!
A casa da minha infância foi vendida após a morte de meu pai, quando já éramos todos adultos, casados e independentes. Parecia que somente nossa mãe sofria com a perda. Ela me pedia que passasse de carro na frente do sobrado para matar as saudades. Sua nostalgia foi me contagiando e passei a ver a velha casa com olhar menos endurecido. A nova família fez uma grande reforma para morar – até sacada eles colocaram. Fiquei emocionada ao perceber que mantiveram a cerejeira do jardim, plantada por meu pai há longos anos. Está lá, florindo e frutificando, imponente, contra todas as probabilidades, naquela fumaceira de carros e ônibus. Acho que, além da árvore, nada mais é como antes. Estou certa de que as goteiras foram consertadas, porque só agora percebo que elas me pertenciam. Eu as trouxe comigo para a casa nova. São pingos d’água que me acompanham pela vida a fora e me mantêm com os olhos sempre levemente umedecidos.
Imagem gerada por I.A.
