Era um aniversário de 18 anos. O primeiro com bebida alcoólica consentida. A dona da festa sobrevoava todos os espaços, dentro de um vestido longo e justo e sobre sandálias muito altas. Era a plenitude da ventura. Maioridade, licença para dirigir e festas, entre outras coisas. O que faz um filho feliz, mas deixa um pai mais calvo e uma mãe mais grisalha (na raiz).
A comemoração era em casa. Um pequeno jantar oferecido mais cedo aos avós, padrinhos e parentes próximos e, bem mais tarde, quando a família já estava a se retirar, começavam a chegar os amigos. Enchiam a sala de estar e se espalhavam pela pequena varanda e jardim. Agora, aos adultos era vetada a presença.
A música enchia o ambiente o tempo todo, predominando o rock, sempre tão atual. Petiscos em bandejas passavam de mão em mão até pousarem em uma mesa de canto. Ao centro da sala, uma pista de dança, onde casais já formados e casais em formação fingiam dançar. As moças sem par sacudiam o corpo de modo provocante, enquanto os rapazes observavam e cochichavam. A aniversariante, com todos os motivos para bebemorar, não se separava da taça de espumante.
Muitos brindes e muitos goles depois, a jovem começava a girar em volta de si mesma. O barulho parecia ensurdecedor, a vista escurecia e clareava e tornava a escurecer e clarear. O pior é que nessa ocasião tinha um rapaz de quem ela gostava muito* e queria conquistar. Uma amiga percebeu o que estava acontecendo e carregou-a para o banheiro, ordenando: Bota o o dedo na goela que fica tudo bem!
Feito. Devolvida toda a macarronada da ceia, começou a se recuperar. Água gelada para beber de golinho e passar no rosto. A amiga ajudou na recomposição da maquiagem e dos cabelos. Tudo bem. Tudo certo. De volta à sala.
Muitos já tinham parado de dançar. Os apaixonados namoravam nos recantos mais discretos. Um pequeno grupo sentara-se formando uma roda a cantarolar e contar causos. E lá estava ele. Razão de todos os seus interesses. A jovem aniversariante puxou um pufe redondo de couro e posicionou-se na bem na frente do rapaz. Cruzou as pernas, deixando aparecer boa parte da coxa pela fenda do vestido. Com um sorriso sensual, balançou o pé delicado, exibindo as unhas pintadas de vermelho e alguns fios de macarrão por entre os dedos, ante o olhar estarrecido e enojado da plateia.
*Rubem Braga, em A Deus e ao Diabo também.
Texto publicado em Há de ti, Rubem Braga, Ed. Buqui, 2017.
Imagem gerada por I.A.
