O muro

Magda traiu todos nós: pai, mãe e irmãos.

 

Nossa casa era um sobrado. Nos fundos, morava um casal com três crianças. Eles eram muito esnobes, metidos mesmo. Tinham uma casa maior e melhor do que a nossa e se achavam mais finos. Decerto eram, pois nosso pai sempre foi grosso e ranzinza. O pai nunca gostou do vizinho dos fundos e o sentimento era recíproco, tanto que mandaram levantar mais o muro para que nenhum precisasse olhar para a cara do outro. Com essa medida evitavam também que os filhos ficassem amigos e pulassem para o pátio vizinho. Nem era preciso, pois a antipatia passava de pais para filhos. Meu irmão nunca trocou palavra com o guri da idade dele, e eu, apesar de estar na mesma aula da menina, nunca fui amiga dela. Éramos apenas colegas.

 

Então, nasceram, quase na mesma época, a Magda e a Clara, as traidoras. Pois não é que, depois de quase dez anos de orgulhosa e cordial inimizade com a turma dos fundos, elas quase mudaram a história?! Um belo dia, espiaram-se por cima do muro alto, trepadas sei lá em que, e resolveram trair todos nós – os do lado de lá e os do lado de cá. Começaram assim: conversando empoleiradas. Evoluíram; trocavam roupinhas de bonecas, exibiam e emprestavam-se brinquedos. Mas, sempre respeitando os limites territoriais. Durante anos, foi uma amizade meio aérea e naturalmente tumultuada. A pequena Clara não era doce como a irmã, ao contrário, era chata e afetada como o irmão. Não demorou muito para que Magda e Clara se engalfinhassem. Brigavam num dia e no outro lá estavam se espiando de novo. Para meu desgosto. As pobrezinhas não tinham muita opção, eram pequenas, sozinhas, não tinham irmãos da mesma idade para brincar.

 

Certa vez Magda entrou em casa chorando, porque Clara a tinha ofendido e exigido de volta um brinquedo que elas haviam trocado. Furiosa, fui até a janela dos fundos, no andar de cima, e gritei para a chata que estava empoleirada no muro: são estes os teus brinquedos? Ela respondeu que sim. Não fiz cerimônia, joguei um por um, com toda a força, pelos sete metros de pátio que nos separavam, até atravessarem o maldito muro e alcançarem os domínios inimigos. Naquele gesto eu extravasava toda a minha indignação com aquela amizade despropositada. Era como se estivesse jogando granadas e acabando de uma vez por todas com aquela invasão dos limites territoriais da família Fortes. Não sei quanto tempo durou aquele rompimento delas, certamente não foi definitivo, pois isto só se deu na idade escolar. Mesmo assim valeu. A partir daquele dia, Magda ficou mais esperta; consequentemente brigavam mais. Além disso, ela sabia que eu estava a postos para defendê-la.

 

A amizade durou o tempo certo de terem liberdade de sair para a rua e conhecer outras crianças. Quando entraram para a escola, perceberam que não tinham nada a ver uma com a outra, para felicidade geral das famílias.

 

Naquela ocasião, só não tratei minha irmãzinha caçula do modo como se deve tratar um traidor, porque sabia que ela ainda era muito inocente. Um dia nos daria razão e passaria de vez para o lado de cá do muro. Como de fato aconteceu, no seu devido tempo.

 

 

 

Imagem gerada por I.A.

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