Nem sempre dá para abanar o rabo

Dois fatos ocorridos um tempo atrás me levaram a uma reflexão.

Casinhas de cachorros nas calçadas de um bairro de Porto Alegre foram colocadas por alguns moradores,  penalizados com a triste situação dos cachorros de rua.  Outros, descontentes, reclamaram. Não sendo ouvidos, foram ao órgão competente. A autoridade pública mandou retirar. Virou notícia, polêmica, debates e  embates. E, por ora, elas permanecem.

Em outro bairro, chamou atenção o caso de um sem-teto que improvisou uma casinha em cima de uma árvore do parque local. Com direito a rede e uma vista perene. Um repórter resolveu entrevistá-lo e colocou tudo a perder. Virou notícia, causou polêmica. A autoridade pública mandou retirar. Tantos sem-teto moram em paradas de ônibus, marquises de lojas e canteiros centrais de grandes avenidas, sem que alguém tome qualquer providência. Parece que a casa nas alturas despertou inveja. Não me lembro de manifestações a favor de manter o Tarzan do pampa em seu novo lar.

A comoção com o despejo dos cachorros de rua foi maior do que a favor do homem da árvore. Mas, somos como somos. Cada um defende a causa que mais afeta seus sentidos.

Muitos enchem a boca para dizer que gostam mais de bicho do que de gente. É um tanto prepotente. Muito fácil gostar de quem não contesta. Em geral, são animais dóceis que dependem dos humanos para serem nutridos, medicados e protegidos. O amor deles é verdadeiro e recíproco. Não tem como não amar quem cuida e protege; não tem como não amar quem está sempre feliz, abanando o rabo em qualquer situação.

Humanos são falhos; têm  variações de humor – são contas a pagar, pane no carro, ônibus cheio, guarda-chuva estragado, assalto na saída do banco. Um milhão de coisas que impactam a vida doméstica e os relacionamentos. Nem sempre dá para abanar o rabo, mas dá para entender porque o cachorro é o melhor amigo do homem.

Os pets parecem estar substituindo muito bem os filhos. São mais independentes, não reclamam, não tiram notas baixas e não choram pelo brinquedo na vitrine. Além disto, não têm a temida fase adolescente, cada vez mais longa e desafiadora, que assombra tantos pais. Estão livres de drogas e más companhias, já que vivem confinados e só saem com os responsáveis. São filhos que não crescem e não ganham independência. Invertem a ordem lógica da paternidade. Morrem antes, o que causa muita dor. Entretanto, nestes “pais” é ausente uma das maiores preocupações da vida: o futuro dos filhos.

Pouco investimento em educação. Gastos mínimos em brinquedos, roupas e tecnologia. Nenhuma necessidade de amealhar patrimônio para os rebentos. Com estes filhos substitutos, humanos podem trabalhar menos e usufruir mais. Segundo esta premissa, podemos concluir que os animais domésticos terão uma vida cada vez melhor e mais próxima dos cuidados e  conforto antes reservados às crianças. Quanto aos humanos, estão a procriar e se relacionar com os semelhantes cada vez menos, e envelhecendo mais sozinhos. Aumento da população idosa e baixa taxa de natalidade já é fato. Talvez seja este o caminho para a  extinção da nossa espécie. Simples assim. Nem guerra nuclear, nem meteorito.

Imagem gerada por I.A.

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