Nada mais

Da  larga porta envidraçada podia enxergar o jardim. Na escrivaninha, o papel em branco me causava desconforto. Pilhas de livros e manuscritos. Cartas e poemas. Seriam meus? Revirei gavetas e estantes em busca de respostas. Cada vez mais dúvidas eu tinha.

 

Fotografias em preto e branco, arrumadas em álbuns. Outras, coloridas, algumas meio desbotadas, soltas na gaveta. Olhei várias vezes o espelho e as fotos alternadamente, mas não me vi em nenhuma. Ninguém com meus olhos fundos e vazios. Que gente era aquela que não me remetia a nada?

 

O jardim abandonado deve ter sido vívido, mas agora era mato e galhos secos, com pedras no caminho. No fundo, uma casinha de cachorro sem cachorro. Gaiolas de passarinhos sem passarinhos. Floreiras vazias de flores. Num galho grosso, restos do que foi um balanço. Crianças brincaram neste jardim. Filhos? Netos? Sobrinhos? Eu mesmo, quem sabe! Posso não ser tão velho quanto o espelho me fez crer.

 

O muro descascado e alto não me deixava ver a casa vizinha. Envesguei os olhos por cima dele tentando lembrar de um rosto, um diálogo, uma briga, o que fosse, mas nada. Não fazia ideia do que havia do lado de lá. Por cima havia arame farpado enrolado de uma ponta a outra. Perigoso viver na casa? Não sei. Nem tenho certeza se um dia vivi neste lugar. Trouxeram-me para cá, na esperança de ativar minhas lembranças. Mas o muro, de pintura tão falhada quanto minha memória, não me dizia absolutamente nada. Sentia-me fraco e vazio; talvez fosse melhor ter morrido, não ter voltado.*

 

Adiantei-me pela cozinha, grande com mesa comprida. Houve muita gente por aqui em algum tempo que não o meu. Abrindo a geladeira, veio dela um cheiro de coisa velha e estragada, embora parecesse limpa. No armário de porta de vidro, uma louça de porcelana com estampa miúda e delicada, o que me induziu a pensar que viveu na casa uma mulher de bom gosto. Nada daquilo me pertencia. Se um dia me pertenceu, foi lá atrás, quando eu ainda era um homem completo.

 

Na caminhada  para o interior da casa, avistei um jardim de inverno. Poltronas confortáveis. Soube na hora que eram confortáveis. Finalmente me senti em casa. Já estive aqui e não estive sozinho, pensei alto. Sabia que mais adiante encontraria uma lareira. E me vi atiçando o fogo. Pude sentir o cheiro da picumã. Ouvir o latido do cachorro. Salivei um gosto de Malbec. Então, me lembrei de tudo. Tudo o que importava. Minha única certeza: ali eu vivi e fui feliz. Nada mais.

 

 

 

*Rubem Braga, em Foi uma senhora.

 

Texto publicado em Há de ti, Rubem Braga, Ed. Buqui, 2017.

 

Imagem gerada por I.A.

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