Mulheres clandestinas

Sou descendente de mulheres julgadas e condenadas pela sociedade medieval por bruxaria, no final do século XVI, na Europa. Um tempo em que às mulheres quase nada era permitido. As que ousavam quebrar regras ou ultrapassar limites eram condenadas à fogueira, que representava o inferno na terra.

 

Tal como minhas antepassadas, ousei questionar as regras. Não fui jogada na fogueira da Inquisição porque vivo no século XXI, mas fui igualmente maltratada pela sociedade. Minha sensibilidade e meu conhecimento acerca das plantas e de seus poderes curadores faz com que muitos me vejam como bruxa. Mas minha bruxaria salva pessoas e animais. As ervas que aprendi a reconhecer na natureza, e colher para uso em benefício de outros, são vistas como poções malditas. Seres como eu, com dons especiais de premonição e cura, não são  tratados com o devido respeito. Mulheres como nós são  vistas como desequilibradas. Nossas ancestrais nos passaram, através de gerações, seus dons e suas lutas. A ancestralidade nos fez assim. Não deixaremos de cumprir nossa missão.

 

De tanto me sentir clandestina e deslocada na hipócrita sociedade conduzida por homens incompletos, me retirei para a floresta. Faço curas e trabalhos espirituais. Quando é preciso, faço partos e benzeduras nos locais mais distantes, de difícil acesso, onde médicos não querem estar.  Virei mulher andarilha. Também me estabeleço, por um tempo, nas esquinas da cidade, para vender minhas ervas e ensinar suas propriedades. Só faço o bem, mas sou vista como o próprio mal. Parece que foi negada aos homens a capacidade de entender o que não é palpável. Não aceitam o que é imaterial e , principalmente, o que não dominam. Na visão torta dessa sociedade predadora, ainda deveríamos estar ardendo na fogueira da Inquisição. Só nos compreendem nossos pares. Os que não nos odeiam nos temem. E os que nos odeiam nos temem ainda mais.

 

Melhor despertarmos esses sentimentos tão fortes do que ignorarmos nossa essência. Antes assim do que viver somente para representar o papel secundário que a nós foi destinado desde sempre.

 

 

 

Texto inspirado na foto acima, de Paulo Paim.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima

Descubra mais sobre Vem Comigo!

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading