Mais um lamento

Fim de setembro, voltando de Florianópolis, enquanto dirigia sozinha na BR-101, pensava em uma pessoa especial que estava recebendo as últimas homenagens naquele momento. Foi estranho, porque já havia vivido aquilo.  De certa forma, era uma história se repetindo.

 

Um ano antes,  estava na casa do filho, em Florianópolis, quando recebi a notícia do falecimento da querida Dorinha, colega de escrita. Uma das pessoas mais doces que conheci. Fiquei muito triste, porque, embora ela fosse bem idosa e estivesse doente, para mim, ela era jovem e cheia de vida. Dona de uma alegria e de uma risada invejáveis. No dia seguinte, na estrada, voltando para casa, meus olhos marejaram pela falta que ela ia fazer na vida de tantos que a amavam e admiravam.

 

Há exatamente um mês, em Florianópolis, na casa do mesmo filho, soube da partida do querido Samuel. Outra das pessoas mais doces com quem tive o privilégio de conviver nesta existência. Fiquei muito triste, embora soubesse que o Alzheimer já tinha lhe roubado a lucidez, e que estava em sofrimento. Sei que foi um descanso para ele e para a família. Mesmo assim, lamentável.  

 

O Samuel de quem me lembro é aquele senhor de cabeça branquinha e alma açucarada como merengue, cheio de alegria e disposição para conversas e brincadeiras. Quem nos recebia com o maior afeto do mundo. Sempre pronto para acolher os amigos dos filhos e os filhos desses amigos como se fossem sua família. Jamais me esquecerei dos verões no Cassino. Da caipirinha na praia. Da folia com as crianças. Do bug lotado. Do churrasco na garagem. Da mesa comprida cheia de amigos. Essa é a imagem que ficará para sempre na minha memória. Então, outra vez,  na cento e um, meus olhos nublaram e gotejaram como aquele céu cinzento do caminho. Samuel vai fazer falta para tanta gente!

 

Dorinha e Samuel, embora contemporâneos, não se conheceram — ela, de Dom Pedrito; ele, de Rio Grande —, mas, além dos cabelos de algodão e do meu afeto e admiração, tinham outro tanto em comum, como a capacidade de despertar ondas de carinho por onde passavam. Creio que, no plano onde estão agora, já se encontraram. Devem ter ido para o mesmo pavimento — o reservado aos melhores. Enquanto eles acham pontos de conexão para conversas infindáveis, quase sempre com o protagonismo dos netos, fico  por aqui, grata por ter feito parte de um pedacinho da vida deles.  Como disse o poeta, tudo vale a pena quando a alma não é pequena.

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