O coração da cidade é repleto de arranha-céus que encobrem a vista do firmamento. De baixo, não se veem as estrelas e nem a lua, apenas inúmeros quadradinhos dispostos como ladrilhos. Vez ou outra, alguns se iluminam ou se apagam como se fossem estrelas encobertas por nuvens passageiras. Uns permanecem brilhantes por longo tempo, outros se escurecem logo. Há um mundo de emoções por trás de cada um desses quadrinhos. Muitas vidas, muitas histórias. Pessoas felizes, tristes, solitárias, observadoras ou indiferentes. De tudo um pouco por detrás das janelas escuras ou expostas. Na rua, a longa distância dos olhos, minúsculos seres e veículos movimentam-se pra lá e pra cá. São brinquedos imaginários, que ganham vida quando o pensamento lhes dá corda. Nada passa despercebido ao olhar atento na torre de ladrilhos.
De um pequeno espaço pouco iluminado, uma luneta não aponta para o céu, como era de se esperar. Movimenta-se em diversas direções, conforme o comando da moradora curiosa. Laura observa o homem que aguarda para atravessar a rua. Como boa e velha cronista, cria uma história para ele. Também já deu vida à vendedora da banca de revistas, que mais parece uma formiga, avistada do vigésimo terceiro andar. São intérpretes semirreais e perfeitos para histórias inventadas ou traduzidas com pitadas de fantasia. A cada dia um novo mote pela janela da cronista. Não só ao rés do chão vivem seus personagens. Ajustando a luneta e olhando na direção da esquerda, na quadra seguinte, uns dois andares abaixo do seu, pode ver a senhora baixinha, com cabelos enfarinhados, fazendo bolo para esperar os netos que não vêm. Mais abaixo, uma cama hospitalar. Será de um enfermo jovem, ou de um idoso debilitado pelos anos e prazeres da vida? Virando-se para a direita, no prédio cinzento, bem abaixo de seu horizonte, enxerga apenas dois pares de pernas que se entrelaçam e se movimentam sobre um sofá estreito, sugerindo uma tarde de amor. Laura sente um pouco de inveja. Deve ser muito bom transar as três da tarde em uma terça-feira. Tanto faz, ultimamente não tem transado nem nas noites de sextas ou sábados.
Os personagens bailam em sua mente criativa. No mesmo prédio em que ela mora, há uma família com três crianças. Bem poderiam ser os netos daquela avó boleira e fazerem a visita tão esperada. O rapaz que mora sozinho no vigésimo primeiro andar procura uma moça também solitária em um aplicativo de relacionamento. Uma moça solitária, no décimo terceiro, procura um rapaz no mesmo aplicativo. Não vão se encontrar nunca. Ele é um centímetro mais baixo do que ela pede no perfil. Ela tem um ano a mais do que ele procura. Muito próximos e muito distantes. Centenas ou milhares de pessoas permanecem fechadas em seus quadradinhos. Das janelas indiscretas, é possível testemunhar momentos íntimos. Amor, sexo, discussões, agressões leves ou mais severas. Até um crime pode ser testemunhado do alto da torre.
No correr da noite, os pequenos ladrilhos vão perdendo brilho e cor. Poucos permanecem visíveis. Para a maioria, é o encerramento de mais uma jornada. Para outros, é o início ou a continuação de tarefas noturnas. O céu permanece sem lua e sem estrelas para os de baixo. Somente moradores de andares bem altos têm o privilégio de apreciar a noite por inteiro. Laura segue sua vigília em busca de elementos para a crônica da semana. Os personagens desvelados pelo óculo de vidro são perfeitos pela imperfeição com que se apresentam.
