Gran finale

Esta semana assisti ao filme Para Sempre Alice. Drama americano que concorreu ao Oscar 2015 e premiou a atriz Julianne Moore no papel da Dra. Alice Howland, uma intelectual diagnosticada com Alzheimer aos 50 anos.

Custei a me decidir. Temia que o filme me deixasse muito deprimida, afinal é fácil a identificação com a protagonista.

É um bom filme, como todos os que nos fazem refletir. Pensar nas limitações e na finitude de nossa existência é um assunto meio tabu. Evitamos, como tudo o que nos faz sofrer. Mas, às vezes, nos encontramos tão próximos que, frente a frente, não podemos evitá-lo. Precisamos falar sobre o fim.

Mais do que o aspecto sofrido da doença, o que me chamou a atenção foi o amor e o acolhimento. Apesar do triste desenrolar da trama, fica evidente que Alice teve uma vida feliz. Teve sucesso profissional e pessoal. Amou e foi amada, e não sofreu abandono. Foi sempre bem cuidada e cercada de amor pela família. Até o fim.

Falando de Amor, este, sim, foi um filme que me deprimiu muito. Para quem não sabe, Amor é um drama que se passa na França. Conta a história de Anne (Emmanuelle Riva) e Georges (Jean-Louis Tintignant) um casal muito idoso que vive só. A mulher sofre um derrame e fica completamente dependente do marido. O sacrifício do homem para cuidar sozinho da esposa inválida é comovente e impactante. A solidão daquela velhice compartilhada choca.

Em ambas histórias a pergunta que nos fica é: o que fazer quando a vida não vale mais a pena?

Ninguém está livre da doença e da morte anunciada e lenta. Serve de conforto olhar para trás e ter orgulho do legado. Mas, para amenizar as dores físicas e morais do presente, mais do que fármacos é preciso acolhimento. Amor e cuidados têm um valor incalculável nestas horas. Nada mais triste do que se acabar sozinho, abandonado à própria sorte. Mas é certo que ninguém quer esta dependência. Sentir-se um peso para filhos, cônjuges e outros parentes é como cobrar com juros o amor e cuidado distribuídos ao longo da jornada. E, na contabilidade do afeto, ninguém quer ir embora com saldo negativo.

Voltemos, então, à personagem Alice. Ela, consciente de tudo o que está por vir, resolve tomar providências. Grava um vídeo para si mesma, com orientações para que tome um vidro cheio de comprimidos guardados em uma gaveta, quando não puder mais responder a perguntas básicas como onde mora e qual o nome da filha mais velha. Mas, infelizmente, seu plano não dá certo. Uma pena, porque ela deixa claro, em toda a sua lucidez, qual seu desejo para o fim.

Penso que, se tivesse poderes divinos, faria com que os seres humanos fossem dotados de um dispositivo interno capaz de desligá-los da vida, quando esta não valesse mais a pena. Sem deixar a decisão para terceiros. Sem dividir culpa ou responsabilidade. Uma espécie de autoeutanásia.

Mas, penso também que o homem já foi criado com dispositivo semelhante. Ele mesmo o destruiu com a evolução. São tantos os recursos medicamentosos e invasivos para o prolongamento da vida que o corpo não morre mais no tempo certo. Nem mesmo quando viver já perdeu o sentido.

Imagem gerada por I.A.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima

Descubra mais sobre Vem Comigo!

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading