Ano passado fomos, os três filhos, acompanhar a exumação do corpo de nosso pai, falecido há quase trinta anos. Nunca tinha visto cena parecida, senão em filmes. Muito louca a mistura de sentimentos com sentimento nenhum. Os funcionários do cemitério abriram o túmulo e retiraram o caixão, que se desmantelou com o movimento. Avistamos o que restou dele. Roupas e chapéu intactos. Um crânio que me pareceu minúsculo, quase infantil. Não me lembro dos sapatos. Mas devia estar intacto também, pois não me recordo de ter visto os ossos dos pés. Na verdade, nem os das mãos. Acho que fiquei tão impressionada com o crânio, que me abstive do resto. Isso é o que sobrou de meu pai, pensei. Tanta energia, cultura, arrogância e explosão de emoções, tudo apagado dentro de um baú de madeira apodrecida.
Passamos a vida marcando nossa presença em outras vidas, numa luta incessante para sermos inesquecíveis, e nos tornarmos, um dia, apenas um punhado de cinzas num belo pote de madeira. Essas marcas são o que fica. E até mesmo elas, um dia, se apagarão das memórias. Entretanto, estudos da epigenética levam a crer que carregamos em nosso DNA as vitórias e os fracassos de nossos antepassados. Eis a imortalidade tão perseguida. Tudo é para sempre. Antes de fazer merda, pense que isso ficará registrado no DNA dos seus descendentes. Se é para ser imortal, seja algo que preste.
No cemitério, ao fim do processo, os restos mortais foram encaminhados para cremação. Espaço liberado para a venda. Mais umas burocracias a seguir. Precisa registrar no cartório a transferência para os herdeiros. Depois anunciar a venda em algum site apropriado, já que o cemitério não compra de volta. Se não me engano, eles vendem por quinze mil reais, parcelados em muitas vezes. Qualquer valor que pedirmos terá que ser à vista, o que dificulta bastante. Não são muitas as pessoas que decidem, em vida, comprar o lugar de cair morto. Menos ainda os que procuram nos classificados, embora não haja diferença nenhuma além do preço. E fico me perguntando se ainda tem muita gente querendo ser engavetada, já que nos últimos anos, só tenho comparecido a cerimônias de cremação. Enfim, o espaço está lá, vazio, com taxa semestral de manutenção. Já nos questionamos se não podemos utilizá-lo para guardar objetos. Cadeiras de praia e guarda-sóis no Inverno. Edredons e cobertores no Verão. Ou, quem sabe, alugar para um sem teto!? Desperdício aquele espaço vazio.
E o pai? Virou um belo pote de cinzas e, por ora, está morando com a filha caçula*. Era uma pessoa tão estranha que até escolher onde jogar as cinzas é difícil. Queremos que seja em um lugar que tenha a ver com ele. E quem é que sabe do que ele realmente gostava? Um parque, uma cachoeira, um rio, o alto de uma montanha? Uma biblioteca, a casa da Santo Antônio, ou o bar da Ramiro? Sei lá. A única certeza que temos é de não jogar as cinzas dele onde jogamos as da mãe.
* Atualização: Na esperança de estarmos fazendo a melhor escolha, colocamos as cinzas dele em volta de árvores em um grande parque de Porto Alegre. Que seja um bom adubo. E a gaveta está lá. Alguém precisando de um lugar modesto para cair morto? Temos!
