De teus olhos um volver
De teus lábios um sorriso
Valem mais que o mundo inteiro
Valem mais que o paraíso
(inscrição no porta-joias da mãe)
Hoje, mamãe querida, serei teus olhos. E, juntas, vamos admirar a cidade. Vou te fazer ver, através de minha voz, os lugares por onde passarmos. E vou fazê-los mais bonitos e mais poéticos, para que teus ouvidos sensíveis apreciem cada prédio, cada rua, cada praça e cada pássaro de rabo amarelo pousado no fio da luz.
Meu bairro não é muito arborizado, como era o nosso de tempos atrás. Tampouco tem uma praça boa de frequentar. Na verdade, nestes dias que se sucedem, nenhuma praça é boa de frequentar. Temos um comércio variado aqui nos arredores. Ias gostar de bater pernas na Cavalhada. Bancos, grandes e pequenas lojas, farmácias, bazar, supermercado. Imagina só, até loja de armarinho. Um encanto, cada tecido mais lindo! E fitas, botões e tudo o mais que nós adoramos. Lãs e linhas para bordados, crochés e tricôs.
Saímos da Cavalhada e seguimos em direção à Azenha. Aqui, sim, tem comércio de todo o tipo. Parece o centro da cidade de outrora. Chegamos na Ipiranga. Lembra da Av. Ipiranga com seu canalete de águas fétidas? Foi todo revitalizado, até a Antônio de Carvalho. Aguas límpidas, quase transparentes. A prefeitura precisou cercar, porque os meninos queriam nadar e os homens, pescar. Plantaram azaleias em toda a sua extensão. Em vários pontos, há bancos confortáveis onde amigos se encontram para o chimarrão. Um sonho!
Aqui, perto do Planetário, fica a residência nova da Magda, tua filha caçula. Estás lembrando dela hoje, né? Que bom. Sei que tens dias difíceis, mas sou também tua memória. Me consulte sempre, mãezinha.
Subindo o lombão da Ramiro, passamos pelo Hospital Moinhos de Vento, onde internaste para colocar o marcapasso. Aqui também nasceu o meu Dudu. Da janela do meu quarto dava para ver o lindo jardim do hospital.
– Vá devagar na descida, motorista, a mãe sofre com o frio na barriga.
Chegamos na Cristóvão Colombo. Há muitos anos, havia nesta esquina o supermercado Zottis. Tu e o pai vinham a pé fazer as compras, e voltavam carregados de sacolas. Nunca mais ouvi falar. Acho que sucumbiu às grandes redes. Dobramos à esquerda. Estamos passamos na frente do Shopping Total, onde ficava a Bhrama. Derrubaram aquele muro enorme. É muito bonito lá dentro. Quase dá para sentir o cheiro de cevada, com o qual convivemos por mais de trinta anos.
Fica atenta, mãezinha, vamos parar na frente da nossa casa na Santo Antônio, para eu te mostrar como está hoje.
Chegamos. Apesar do abandono de outros prédios, nossa casinha está bem cuidada. Fizeram melhorias nela. Está bonita. Agora, tem uma sacadinha na frente, onde era meu quarto. Mudaram a cor da fachada que, por toda minha infância e juventude foi verde. O jardim reduziu para quase nada.
– E a cerejeira, ainda existe, minha filha?
Sim, está ali, bem na frente, a cerejeira que vocês plantaram. E, veja só!, está começando a florir. Não sei se é verdade, ou só fruto desta emoção, mas posso sentir o perfume das flores. Tu não, mãe?
– Sim. Muito. Posso até ver os frutinhos vermelhos e sentir na boca aquele sabor.
– Podemos ir, motorista! Já estamos quase atrasadas para a consulta.
Foto do arquivo pessoal.
