Dona Adelina

Durante minha infância e adolescência, passaram pela nossa casa várias empregadas domésticas – a mãe trabalhava fora. Lembro-me de quase todas. Dona Dalva era uma querida. Cabelos brancos e pele enrugada, como uma avó. Cozinhava, lavava, passava, além de pregar botões. Às vezes me ajudava com as roupas das bonecas. Maria era de outra cidade e por isso morava na casa. Uma negra jovem, bonita e vaidosa. Usava uma peruca de cabelos lisos e gostava de ficar na janela. Tinha um noivo no interior, a quem visitava nas folgas do trabalho. Foi recolhida pela família, quando se confirmou a gravidez, para a celebração imediata do casamento. Veio, então, uma prima dela de nome Iracema, um pouco mais velha e madura.  Eu estava entrando na adolescência e ela gostava de me dar conselhos sobre sexo. Disse-me, certa vez, que não fosse com muita sede ao pote. Que me demorasse para começar, pois logo perdia a graça e virava rotina. Sabedoria da minha primeira instrutora sexual. Da mesma família, ainda tivemos a Antoninha, baixinha e muito alegre, dona de um sorriso escancarado que denunciava a falta do dentão da frente. Vivia o ano inteiro a esperar o Carnaval, quando, por fim, se esbaldava na passarela de uma escola de samba da zona norte. Entre idas e vindas, quem ficou mais tempo foi a Zeni, acolhida pela mãe na porta de casa, com filhos pequenos e em situação de miséria. Passaram-se os anos e vieram mais filhos, que logo também tiveram muitos filhos, embora a mãe distribuísse anticoncepcionais e conselhos a todas as gerações.

 

Mas de quem me lembro com mais frequência é a Dona Adelina. Tinha eu uns três ou quatro anos quando entrou em minha vida. Uma mulher graúda. Nem gorda, nem magra. Ossos largos e um colo duro. Diz a mãe que ela me botava balda. Não que me lembre. Sei que servia a mesa já com coador na mão para coar o meu feijão. Criança tem que aprender a comer de tudo, vociferava o pai. Mas na sua cara magra havia uma grande paz e conformação*, pois sabia que não ia adiantar nada.  Assim que eles saíam para o trabalho, Dona Adelina, a pretexto de me fazer sestear,  abria o sofá-cama da sala e espichava seu corpo cheio de pontas ao lado do meu. Momentos odiosos! Não sei por que motivo, eu fungava ao deitar, e ela se aborrecia e me cutucava. Isso se repetia muitas vezes. Por fim, acho que eu já fazia de propósito. Se me botava balda, eu não sei. Sei que adoro feijão com grãos e não é graças a ela. Com certeza marcou minha infância, pois nas crises de rinite da vida adulta, me lembro dela a cada fungada.

 

 

 

*Rubem Braga, em O homem dos Burros.

Texto publicado em Há de ti, Rubem Braga, Ed. Buqui, 2017.
Imagem gerada por I.A.

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