Caro amigo*

Meu caro amigo me perdoe, por favor, se não lhe envio uma marmita.

 

Mas, como agora apareceu o Contador, não mando nem batata frita.

 

Aqui no bar estão olhando o futebol. Tem muita ceva, muito chopp e rock’n’roll. Uns dias Brahma, noutros dias, só Skol.

 

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui ta preta.

 

Muita mutreta pra evitar a confusão. Tem gente encenando até a piada mais sem graça. Tem cliente misturando muita ceva com cachaça.

 

Ninguém segura esse balcão.

 

Meu caro amigo, eu não pretendo mais fiar. Vou lhe chamar à realidade, pois acontece que não dá mais pra evitar de lhe cobrar a improbidade.

 

Aqui no bar estão olhando o futebol. Tem muita ceva, muito chopp e rock’n’roll. Uns dias Brahma, noutros dias, só Skol.

 

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui ta preta.

 

É pirueta pra pagar cada tostão. Cliente pendurando a ceva, a canha e o cigarro. Tem gente se afundando também com o pé no barro.

 

Ninguém segura esse balcão.

 

Meu caro amigo, eu quis até lhe perdoar, mas a sua conta não tem graça. Eu ando aflito pra fazer você pagar. A partir de hoje nada passa.

 

Aqui no bar estão olhando o futebol. Tem muita ceva, muito chopp e rock’n’roll. Uns dias Brahma, noutros dias, só Skol.

 

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui ta preta.

 

Muita careta pra esconder a tapeação. Tem gente me saqueando de pouquinho. Tem gente se saindo de fininho, indo bem devagarzinho.

 

Ninguém segura esse balcão.

 

Meu caro amigo, eu não queria lhe ofender, já que o cliente anda arisco. Se me permite, vou fazer-lhe entender que o meu negócio virou risco.

 

Aqui no bar estão olhando o futebol. Tem muita ceva, muito chopp e rock’n’roll. Uns dias Brahma, noutros dias, só Skol.

 

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui ta preta.

 

A caderneta tá suspensa para os seus – o queijo da família, da Emília e da criança. Amigo, vamos logo acabar com essa lambança.

 

Nada de pessoal.

 

Adeus.

 

 

 

Texto publicado em Santa Sede, crônicas de botequim, Ed. Literalis, 2010.

 

*Parodiando Meu caro amigo, de Chico Buarque e Francis Hime.

 

Imagem gerada por I.A.

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