Era uma mulher temente a Deus. Muito. Vivia de terço na mão. E tinha fortes motivos. Dentre tantos adjetivos que lhe cabiam, destaque para avarenta e fofoqueira. Acrescente-se um boa dose de sadismo. Como todo o fofoqueiro, era simpática e bem relacionada. Morou no mesmo bairro por mais de cinquenta anos, o que a tornara bem popular. Frequentava a paróquia local e comungava aos domingos. Se confessava seus pecados, não sabemos. Se ficava arrependida, também não. Com certeza, as contas do Rosário seriam poucas para as penitências.
Colecionava santinhos. Em imagens de papel, gesso, barro, ou porcelana. Também medalhinhas, terços e escapulários. Crucifixos, representações da Santa Ceia esculpidas em madeira ou pedra, ou mesmo em massinha de modelar. Não tinha limites nem critérios. Como se diz, acendia uma vela para cada santo. Inclusive, ciscava também em terreiros de religiões afro-brasileiras. E, por óbvio, colecionava fios de contas e outros símbolos. Quando surgiram, na década de 1990, as famosas lojinhas de R$ 1,99, era cliente assídua. Lotou a casa de bibelôs, apetrechos inúteis e outras novidades vindas da China. Tornou-se uma acumuladora. Os filhos diziam que, quando ela morresse, poderiam abrir uma lojinha dessas para se livrar das traquitanas.
Era uma mulher fogosa e adorava falar de sexo. Os sobrinhos, quando adolescentes achavam ela o máximo. Já os filhos, não viam com bons olhos tantas intimidades explícitas. Desbocada, adorava um palavrão, daqueles de enrubescer o michê da esquina. Depois que o marido enfartou e não compareceu mais ao leito nupcial, ficou desolada. Queixava-se diariamente às irmãs ou a quem estivesse por perto. O bairro inteiro sabia que ele estava brocha. Até os cachorros.
Certa tarde, na casa de veraneio da família, as sobrinhas adolescentes resolveram pregar uma peça nela. As meninas saíram para passear, como sempre faziam. Pegavam carona na Interpraias e iam para a praia maior e mais movimentada. No final da tarde , voltavam do mesmo modo. Mas, naquele dia, saíram três e voltaram duas. A tia, ao ver chegarem só as duas e com caras de susto, perguntou pela terceira. Então, contaram a versão combinada. Que tinham pegado carona de volta com um homem muito estranho. Ficaram com medo e decidiram desembarcar logo em seguida. Quando ele parou, a pedido delas, foram muito rápidas para sair do carro e, antes que a terceira pudesse fazer o mesmo, o homem arrancou em velocidade, não permitindo que ela desembarcasse. Voltaram a pé pela Interpraias, com medo de pegar outra carona. Estavam muito apreensivas com o destino da prima. Fingiam chorar e mostrar aflição.
Queriam deixar a tia preocupada e nervosa, mas a reação dela surpreendeu as meninas e provocou muitas gargalhadas. É tarde! A uma hora dessas já paparam a Fulaninha, disse a mulher, esfregando as mãos e com os olhos faiscando de malícia e gozo.
