Sempre à espreita

Recentemente li um dos livros de Mariana Salomão Carrara, É sempre a hora da nossa morte, amém. Mariana ganhou duas vezes o prêmio  São Paulo de Literatura,  por outros dois romances, que ainda não li. A escrita dela se destaca pela delicadeza no trato de temas pesados, como a dor, o luto, a solidão e questões emocionais femininas. Nessa obra, a história é narrada por uma idosa, que foi encontrada vagando na rua. Ela está perdida, só se lembra do  primeiro nome, e é levada para um abrigo.

Lá, a partir de fragmentos de uma memória confusa e não confiável, uma Assistente Social tenta montar o quebra cabeças de sua vida, para devolvê-la à família. A personagem tem fixação em uma suposta filha que morreu. Daí se desenvolve o drama. Achei a história muito interessante, pois demonstra que estamos sempre fugindo da morte, visto que sobreviver é extremamente perigoso. O ser humano é muito frágil, na opinião da autora. Conforme a narrativa vai avançando, não tem como não concordar. Sobrevivemos diariamente a inúmeras situações que podem acabar com nossas vidas. Desde a picada de um mosquito até a queda de um avião. São tantas as situações de mortes absurdas, que torna-se impossível negar a vulnerabilidade humana. Ao mesmo tempo, podemos entender o contrário: só sobrevivemos porque somos resistentes. Há um paradoxo claro nessa avaliação.

A visão de fragilidade é típica das mães, como é muito bem demonstrada na obra. Quando um filho se demora, a mãe já pensa o pior, ao invés de acreditar que o filho é forte, que sabe se defender, que está tudo bem e que logo chegará. Mães raramente pensam em um simples atraso justificável, tamanho é o pânico de perder um filho. Assim é em caso de doença.  Por mais simples que se apresente, a mente divaga em torno de todas as possibilidades de morte que pode advir. Me incluo entre essas mães que padecem de razão.  Aqui cabe acrescentar o tanto de culpa que carregamos, como se a morte fosse realmente evitável, e nossa responsabilidade, evitá-la —  tanto a nossa como a de nossos filhos. “Uma das muitas crueldades da morte é soar evitável… “Outra das muitas crueldades da morte é aproveitar aquele único lapso que tivemos dentro dos nossos sistemas cotidianos, isso tudo para que ela, a morte, nunca seja a culpada, sempre há um humano a condenar…”, reflete a autora.

Mas não é só isso. Mariana Carrara demonstra de outras formas a nossa tendência ao perecimento rápido. Destaque para o trecho “viver não me parece a tendência de ninguém, todas as células o tempo todo caminhando para a oxidação e a falha, que insuportável é a consciência do absurdo químico que é existirmos”. E a gente luta contra isso desde sempre. A medicina, a estética, a engenharia, a ciência de modo geral, sempre trabalhando para evitar o fim, para nos tirar de lugares perigosos, capazes de nos colocar na boca do lobo. Para, em algum momento, uns antes, outros mais tarde, irmos parar na mesma maca fria de um hospital, ou de uma funerária, empurrada por uma bela e vivaz jovem. Mas nada garante que essa jovem não vá tropeçar e bater a cabeça no ferro da maca, sangrando até morrer. Eis a fragilidade da nossa existência.

 

Texto inspirado na imagem acima, capa do quinto álbum da banda britânica Blur, 1977

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