O balcão do bar é, para muitos, um confessionário. Quando existe um atendente disponível, ele se transforma no bom ouvinte, no ombro amigo ou no cara que diz a hora de ir pra casa. Se o atendente estiver ocupado, não tem a menor importância. Hão de lhe escutar os copos, as garrafas ou os ovos em conserva. O que atrai as sinceridades dos ébrios é o balcão, que ganha importância de amigo depois da quinta dose.
São tantas histórias. Do corno descornado e do corno alegre. Do infiel arrependido e do infiel vaidoso. Há histórias de amores proibidos, platônicos e resilientes. Lamúria de quem perdeu o emprego, tristeza do enlutado, desabafo do pai ausente e raiva do chefe. Tudo despejado ali naquele ambiente acolhe dor. Fora do confessionário, a beberagem é comemorativa. O emprego novo, a formatura do filho, a reconquista da mulher amada, tudo com rodada grátis até para os desconhecidos. São dois mundos paralelos, para frequentar conforme o momento — depressão ou euforia.
O bar é como a casa da avó, oferece abrigo e conforto a todos. Não com o tradicional bolo recém saído do forno, mas com o chope gelado saindo sem colarinho. E fritas para acompanhar. O balcão ainda é predominantemente masculino. Mulheres já ganharam o bar. Vão com uma leva de amigas ou colegas. Bebem muito e riem alto. Também vão sozinhas para se divertir ou afogar mágoas. Mas ainda ficam muito restritas às mesas. O espaço sagrado dos bancos altos é frequentado por umas poucas mais destemidas.
Em um canto do salão, quase escondida, há uma mulher solitária. Tem cara de amargura. Jeito de mulher traída. Enigmática como quem está definindo os próximos passos. Olhos levemente umedecidos, sem denunciar se são fruto de raiva ou tristeza. O reencontro com a felicidade tem que passar pela vingança, diz o sangue fervente que a aquece por dentro. Lutam a luz e a treva na alma ferida. Fornicar ou esquecer? Perdoar ou matar? Beber mais ou pedir a conta? Ir ao confessionário ou engolir o pranto na mesa do fundo? No balcão, sempre haverá quem a ouça. Quem a convide para dançar. Quem a leve para casa. É lá que os traídos encontram seus pares. É lá que os boêmios fazem a noite acontecer.
– Coragem, mulher!
Texto inspirado na imagem acima, capa do álbum In Through the Out Door, da banda britânica Led Zeppelin, 1979.
