Minha primeira professora era uma mulher sem graça. Magra, discreta, nenhum encanto para povoar minhas lembranças. Madura como a minha mãe, pronta a repreender, exigir e educar. Crianças gostam de professoras jovens e cheias de vida. Moças bonitas que sirvam de espelho às meninas e despertem as primeiras paixões nos garotos. No imaginário infantil só existem duas possibilidades: ser jovem como a professora Magda, por quem meu irmão nutriu uma paixão tão intensa, que resultou na escolha do nome do bebê que nossa mãe estava gerando; ou ser velha como as avós, que cobrem as crianças de carinhos, vontades, passeios e guloseimas fora de hora.
Como eu ingressei na escola aos seis anos e já alfabetizada, tinha pouco interesse pela professora. Novidades para mim eram o avental branco bem engomado, as meias da mesma cor e os sapatinhos pretos, de boneca. A pasta, o livro, o caderno, o lápis: isso, sim, me fascinava. Os colegas e a fila também. Adorava formar fila para entrar na sala. Era por ordem de altura e eu, a mais baixinha, ocupava o primeiro lugar – na verdade, disputava com a Elisa. Nunca se soube quem era a menor, então, a cada dia uma ocupava a primeira posição. Logo, passei a dar mais valor ao status de ser a primeira na fila, pois, em todas as outras situações escolares, eu era a última, por causa da letra zê do meu nome. Naquela época, ainda me restava outra pole position: no boletim. Sabia tudo e era a primeira da aula. Melhor dizendo: disputava com a Elisa, alfabetizada em casa também. Mas, não pensem que guardei mágoas da colega, pelo contrário, ela é a minha melhor lembrança da primeira série. Sentávamos juntas e fomos amigas inseparáveis. Muitos anos depois, nos reencontramos, via internet, e avivamos todas essas memórias. Foi muito bom.
Na segunda ou terceira série, tive uma professora tão vilã, que, durante um teste, por medo de pedir para ir ao banheiro, fiz xixi nas calças. Então, tive que esperar todos saírem, para que não rissem de mim.
A professora que marcou minha infância não estava no meu colégio, estava na minha rua. Vinha com o marido, semanalmente, visitar a sogra. Era jovem, bonita e carinhosa. As crianças enchiam a calçada para vê-la e brincar com ela. Tratava criança como gente grande e desenhava super bem. Acho que todos nós a amávamos.
Foi durante o ginásio, no Instituto de Educação, que eu tive a melhor professora de minha vida. Chamava-se Leila. Era uma senhora doce e terna, que lecionava Matemática. A minha dificuldade era tanta (eu migrara de um colégio mais fraco), que quase tive que repetir o ano. Mas Leila fazia com que as frações parecessem poemas. E eu queria muito aprender, para não decepcioná-la. Nessa época descobri a Matemática, e passei até a gostar dela. Essa professora me ensinou muito mais do que cálculos, me ensinou a raciocinar e a perseverar.
Além daquela da terceira série, outras vilãs passaram pelo meu quadro-negro, como as de música, que não aceitavam minha voz fanhosa e desafinada, atrapalhando as aulas de canto. Ou, as que me torturavam deliberadamente, chamando pelos meus dois estranhos nomes. A partir da adolescência, comecei a virar o jogo. Em alguns casos a vilã fui eu.
Encerrei com chave de ouro a época escolar, no que diz respeito aos professores. No último ano do segundo grau, tive um professor de Inglês que dava o que falar. Com cabelo preto e farto, olhos meio puxados e sorriso largo, deixava as meninas mais tontas do que já eram. Eu trabalhava, portanto, estudava à noite. Chegava no colégio cansada e não tinha muita vontade de assistir às aulas. Quando aquele morenaço apareceu para substituir a professora grávida, deu um gás na minha tediosa vida de estudante. Foi meu maior estímulo para terminar o ano com boas notas e poucas faltas. Pelo menos em Inglês.
