É preciso paz para poder sorrir (Tocando em frente – Almir Sater)

O fim do mundo, como tanto já foi anunciado em  livros, filmes e prognósticos, tornou-se realidade. As armas nucleares contaminaram o solo e as águas, tornando impossível a sobrevivência do homem e de tantos outros seres no Planeta. Enquanto alguns se debatem por água e comida, enquanto pessoas desesperadas clamam por ajuda, procuram familiares e animais de estimação perdidos, outros se regozijam em seus abrigos subterrâneos bem abastecidos de tudo. Para os que puderam pagar o alto preço, ou tinham algo mais do que dinheiro, foi ofertada uma saída. Um bilhete sem volta, que exigiu coragem, esperança e espírito desbravador. Há muitos anos, essa viagem vem sendo preparada. Famílias e exemplares de  animais foram escolhidos a dedo. Os melhores profissionais de cada área. Sementes e mudas de tudo o que pudesse ser plantado. Como a arca de Noé, as naves Red foram escolhidas para levar a vida adiante. Desta vez,  longe da Terra devastada. Os que nela permanecerem não terão a menor chance.  Impossível qualquer recomeço. Em pouco tempo, não vai mais existir um ser vivo que beba daquela água.

Há algumas décadas, foi descoberto um pequeno planeta, com aproximadamente um quinto do tamanho da Terra, em uma galáxia distante. Desde então, muitos estudos foram feitos para avaliar a possibilidade de vida lá. Apesar das condições favoráveis, não foram encontrados seres com qualquer semelhança aos humanos. O planeta era habitado por poucas espécies. Algumas, semelhantes a pequenos dinossauros, se mostraram muito agressivas e precisaram ser capturadas para estudo. Foi constatado um  QI bem baixo, porém, eram capazes de se organizarem para destruir invasores. Essas criaturas dominavam o planeta e precisaram ser exterminadas. As outras espécies, rasteiras e aquáticas, eram pacíficas e não ofereciam perigo. Estranhamente, quase não havia espécies voadoras. Apenas alguns poucos insetos e um tipo de besouro amarelo com uma cabeça pontuda, que os cientistas acreditavam poder modificar geneticamente, para que fizessem o trabalho de polinização das abelhas.  Essas já estão praticamente extintas na Terra. Um número insignificante de espécimes foi obtido para a viagem. Muitas doentes, talvez   nem sobrevivam à mudança. 

O planetinha foi nomeado Redland, em referência ao solo predominantemente composto  de terra vermelha. Durante muito tempo, o novo mundo fora preparado para receber terráqueos, caso um dia isso fosse necessário. Agora, nos bunkers sofisticados da alta cúpula da Terra, a primeira turma se prepara para a partida. E, depois, outra, e mais outra. Até que todos os escolhidos tenham tomado lugar em suas naves, rumo à terra assegurada. Ansiosos para concretizar o sonho coletivo, os profissionais mais gabaritados abrirão estradas, levantarão arranha-céus e usarão todo o conhecimento adquirido para tornar o novo lar um espelho do anterior. Distribuirão suas sementes, multiplicarão seu gado e suas aves, colherão ovos e frutas. Domesticarão os seres nativos. Erguerão templos e  nomearão deuses. O poder será exercido em nome do amor, da família e da fraternidade. Mas, em algum momento,  acharão necessário construir armas e bombas.

 

Texto inspirado na imagem acima, capa do álbum Elegy, da banda britânica The Nice, 1971.

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