A casa onde vivemos nossa infância e a maior parte da juventude foi vítima da grande enchente de 1941 — aquela que deu origem ao famoso e controverso muro da Mauá, parcialmente redimido mais de oitenta anos depois. As edificações do nosso bairro, até a altura da Rua Cristóvão Colombo, foram atingidas por água salgada. As salinas localizadas na Rua Voluntários da Pátria foram destruídas e espalharam sal pelo caminho das águas. Essa salinidade penetrou nas paredes, causando um estrago permanente no reboco e nos tijolos. Nossa casa e as tantas outras que conheci tinham, nas paredes, até a altura aproximada de um metro, revestimento de madeira, lambri ou algo similar, para disfarçar o estrago. Não adiantava refazer o reboco. Em pouco tempo voltava a esfarelar.
Já se aproximando a virada do milênio, convencemos a mãe a se mudar. O sobrado estava grande e inseguro para uma viúva sozinha. Soubemos que o comprador fez grandes reformas, já que comprou por um precinho de ocasião. Reativou uma antiga lareira, escondida por uma parede dupla, e criou uma sacada no quarto da frente. Trocou o madeiramento do assoalho e da escada, tudo corroído por cupins. Cremos que deva ter refeito o reboco de todo o pavimento térreo também. Com produtos e materiais mais modernos e resistentes. Gostávamos de imaginar nossa sala de estar com as paredes lisas e bem pintadas, sem aquela roupagem que escondeu a vergonha da enchente por todos os anos em que lá vivemos. Meus irmãos e eu alimentávamos uma grande curiosidade sobre o aspecto novo do nosso velho lar. Chegamos a cogitar fazer uma visita, anos depois, quando o proprietário colocou à venda. Pura nostalgia, nunca fomos.
Perdemos o timing. Nunca mais. A verdade é que a morada da nossa infância estava predestinada ao afogamento. Veio a enchente em 2024 e tudo se repetiu. Ou quase tudo. Desta vez não havia mais as salinas. Pelos registros, essa última foi pior, pois atingiu um nível de água acima da marca de 1941. Houve muita destruição. O muro fez seu papel, mas não foi suficiente. Foram afetados mais bairros e um número muito maior de famílias. Mas, para o nosso sobrado, pelo menos, as águas foram mais doces.
Texto inspirado na imagem acima, capa do álbum Rattlesnakes, da banda britânica Lloyd Cole and the Commotions, 1984.
