Começo meu dia sempre igual. Abro os olhos e espio o rádio-relógio. Nunca acho que seja hora de levantar. Viro para o lado e tento dormir mais um pouco. Não dá certo. Começo a pensar em tudo o que tenho para fazer e a culpa não me deixa curtir a preguiça. Viro de um lado para o outro, tentando espantar a falta de sono. Desisto. Espreguiço-me muito e levanto da cama de um pulo só. Nem tiro o pijama, corro para a cozinha, aqueço água para o café. Abro a sacada e, pela fresta da persiana, olho para fora: ponto a favor, o dia está ensolarado. Quando está sombrio contamina meus sentimentos.
Tomo meu café dando uma olhada no jornal do dia. Volto ao quarto. É quando corro o maior perigo. De imediato, arrumo a cama, para não cair na tentação de abafar nas cobertas ainda quentinhas alguns pensamentos insípidos que trago dentro de mim. Quando tenho muitos compromissos, arrumo a cama assim que levanto, para garantir. Ela costuma ser traiçoeira. À noite, quando me deito cansada, querendo um carinho, ela é dura e fria. Entretanto, pela manhã, quando preciso que ela me expulse, é morna e aconchegante. Comporta-se como um amante de braços envolventes, que me chama de volta às nossas quimeras. Somente depois dos lençóis bem esticados e a colcha compondo o cenário com as almofadas na cabeceira, o assunto está realmente encerrado. Meu dia começou de verdade.
Costumo ter uma lista em local visível, onde constam meus compromissos ou obrigações do dia. A cada tarefa riscada, parto para a seguinte. Ligar para o marceneiro, chamar um encanador, fazer bainha em duas calças jeans, temperar o feijão, dar ração para o cachorro. Está acabando a ração, falta detergente de louça; preciso ir ao mercado. Antes de sair, dou uma administrada no tempo do filho mais velho:
– Filho, acorda. E aí, cara, vai dormir a manhã inteira?
Bem ou mal gerido, o tempo passa igual. Um dia terá sempre vinte e quatro horas, ou 1.440 minutos. E, nesse período, eu sou capaz de realizar um número variado de coisas. Quando sei que posso deixar tarefas para depois, em geral deixo, e acabo numa correria danada. Quanto mais eu fico parada, pensando na quantidade de itens da minha lista, menos eu faço, porque o tempo está acontecendo enquanto eu estou me lamentando. Já fico bem satisfeita quando constato que cumpri mais da metade da rotina programada. Tento administrar bem o meu dia. Posso até me dar ao desfrute de arrolar compromissos, pois, hoje, eu é que estou no comando. Mas, nem sempre foi assim. Há poucos anos, não tinha toda essa autonomia. Naquela ocasião, era ele que me administrava. E eu vivia me queixando da falta de tempo. Agora, eu manipulo o tempo como bem entendo. Essa é minha resposta a quem durante tantos anos me dominou
Imagem gerada por I.A.