Muitas pessoas devem se perguntar o que é glúten, e por que razão alimentos industrializados contém advertência sobre existência ou não de glúten nos rótulos. Pois bem, o glúten é uma proteína existente no trigo, na cevada, na aveia e no centeio, que não pode ser ingerida pelas pessoas portadoras de doença celíaca (DC), sob pena de adoecerem gravemente, podendo chegar a óbito.
Não pretendo, neste artigo, tratar da parte científica da doença, pois não me compete. Pretendo, sim, fazer uma avaliação das dificuldades encontradas pelos celíacos para sobreviverem num mundo dominado pelo trigo, pela ignorância e pelo descaso das autoridades com a saúde pública em geral. Para que possam me compreender melhor, explico resumidamente como o glúten age no organismo do celíaco: causa inflamação no intestino delgado e destruição das vilosidades, tornando-o incapaz de absorver de forma normal os nutrientes dos alimentos. Desta forma, o celíaco pode desenvolver doenças oportunistas ou associadas, pela deficiência de vitaminas e sais minerais essenciais ao bom funcionamento do organismo. Entre elas, as mais comuns são a osteoporose precoce, anemia de repetição, artrite reumatóide, convulsões, depressão, fibromialgia, tumores do trato digestivo; tudo associado à baixa imunidade.
Não há cura, nem medicamentos para combater esta moléstia; apenas dieta, que é tão importante para um celíaco, quanto é a insulina para um diabético. Assim falando, parece fácil. Basta não comer glúten para ser saudável e feliz. Mas, não comer glúten significa mais do que escolher os alimentos pelos ingredientes. Existe um fantasma que assombra o celíaco sempre: a contaminação cruzada. Como se trata de uma intolerância permanente, qualquer quantidade é prejudicial e pode levar a uma crise – com diarréia, dores abdominais e outros sintomas menos clássicos. Esta contaminação ocorre das mais variadas maneiras. Imaginem as situações que vou descrever a seguir.
Num bufê, a garota serve-se de macarrão (de trigo) e deixa cair um pouco de molho no recipiente da carne. No mesmo bufê, um celíaco fala com o chefe de cozinha para certificar-se de que pode comer a carne, pois a mesma não leva nenhum ingrediente com glúten. O molho da carne está contaminado, mas nem o chefe, nem o celíaco sabem disso.
Em outro restaurante, amigos se encontram para um happy-hour. Um deles, celíaco, pergunta ao garçom se as batatinhas fritas não contêm glúten. Certifica-se de que são feitas em uma fritadeira só de batatas. No entanto, alguém completou o óleo da fritadeira com um resto de óleo onde fritaram pastéis. Pronto: óleo contaminado, batatas contaminadas.
Na sorveteria poucas são as opções de sorvete sem glúten. E pode ser nenhuma opção, se clientes ou funcionários usarem a mesma concha para servir um sorvete de chocolate e um de frutas. Mais uma vez a contaminação cruzada, de difícil detecção.
Os exemplos de contaminação, que podem acabar com a alegria de um celíaco fora de casa são tantos, que poderia encher páginas e páginas, descrevendo-os. Mas, existe algo pior: o descaso, a má vontade. Quando os responsáveis omitem a contaminação por acharem que é bobagem, exagero do cliente, numa total falta de respeito. Há também os que preferem ver o celíaco longe. Quando indagados sobre quais pratos pode pedir e comer com segurança, ouvem a mais cruel das respostas: nenhum, aqui tudo tem glúten. É mais fácil se omitir do que assumir responsabilidades. Um fato chamou minha atenção há alguns meses. Estava voltando da praia e parei em uma conhecida casa de doces e biscoitos à beira da estrada. Surpreendeu-me ver na porta um cartaz onde dizia: todos os nossos produtos contêm glúten. Entrei e verifiquei que muitos dos produtos industrializados ali vendidos tinham na embalagem o selo “não contém glúten”. Assim como não contém glúten água, refrigerante, sucos, café, frutas. Mas, parece que é mais fácil discriminar, do que dar atenção a um cliente com necessidades especiais. É comum também que alimentos largamente consumidos por celíacos, com a garantia do fabricante, de repente, sem nenhuma alteração na fórmula, troquem a informação do rótulo de “não…” para “contém glúten”. Fica, então, a dúvida: sempre teve glúten, mas a informação era omitida? Ou resolveram colocar que tem glúten em tudo para evitar aborrecimentos?
O que estas pessoas não sabem é que a cada dia descobrem-se novos celíacos no mundo, o que representa um importante segmento consumidor e eleitor. É uma doença grave, de difícil diagnóstico e, ao contrário do que se pensa, muito antiga. Sendo um mal genético e ainda sem possibilidade cura, tende a aumentar geometricamente. Estima-se que, no Brasil, para cada celíaco que sabe que é, existem mais cinco que são e não sabem. Há estudos indicando que grande parte dos pacientes que desenvolveram câncer no trato digestivo eram celíacos e não sabiam. A única forma de diagnosticar a doença celíaca é a endoscopia com biópsia do intestino delgado. Exame não coberto pelo SUS, uma vez que não há protocolo clínico desta doença. Percebe-se um total descaso das autoridades competentes em relação a DC especificamente. Escolas públicas ignoram crianças portadoras e distribuem merenda escolar igual para todas. Famílias de celíacos recebem cesta básica com macarrão e farinha de trigo. Restaurantes de grandes empresas não reconhecem as necessidades dos celíacos, obrigando-os a passarem por humilhações e desconfortos diariamente. Laboratórios não têm interesse em patrocinar pesquisas, nem colaborar na divulgação da doença, uma vez que celíaco que consegue seguir dieta não é bom cliente.
É verdade que muito já se conseguiu em benefício dos celíacos nos últimos anos. Tanto em relação ao conhecimento do público, quanto à produção de alimentos. Mas, é bom que se saiba, tudo graças ao esforço deles próprios, que, através de associações, trabalham duro para divulgar necessidades e exigir direitos. Trata-se de mais um caso de omissão do Estado, que obriga grupos sociais a se organizarem para fazer valer a Constituição Federal e sobreviverem dignamente.
Mais sobre este assunto? Visite o site da Federação Nacional das Associações de Celíacos do Brasil (fenacelbra.com.br).
Este texto foi escrito em 2009. Felizmente, muitas coisas já melhoraram, mas a situação ainda é bem difícil no dia-a-dia de um celíaco.
Imagem do arquivo pessoal.
