Ai de ti, Porto Alegre

Ai de nós, que te amamos, apesar de teus arroios mal cheirosos e de teu rio,  depósito de corpos estranhos.

 

Ai de ti, Porto Alegre, curtida em teus calorões de menopausa tardia, rodada de bar em bar, da Restinga ao Sarandi.

 

Ai de nós, filhos degenerados, que sugamos teus morros como se fossem fartos seios a nos alimentar de sangue.

 

Ai de ti, Porto Alegre, fêmea triste, a lamentar na beira do cais os amores não vividos, levados pelo Catamarã.

 

Tuas águas engolem teu sol com uma fome adolescente.

 

Teus morros recebem a lua cheia num abraço de eternidade.

 

Do Beira Rio à Arena;

 

Do Barra ao Iguatemi;

 

Do píer de Ipanema à ponte móvel;

 

Nada será como foi.

 

Ai de ti, Porto Alegre, que te acabas em brasas no asfalto negro de tuas vias. São tuas veias e tua vida.

 

Ai de ti, a cada passo nosso.

 

Ai de nós, teus filhos. Andarilhos errantes, vagando sem rumo, pés incandescentes. Restará para nós nada além de seguir o desalinho dos paralelepípedos que formavam o quebra-cabeças da cidade.

 

Da cidade que outrora foste.

 

Ai de ti, Porto Alegre.

 

 

 

Imagem do arquivo pessoal.

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