Retalhos do interior

Uruguaiana, granja de arroz, década de 1960. Passeamos por cima de um longo corredor de canos até chegarmos onde ele deságua e forma uma pequena lagoa. Lá nos banhamos. A força da queda d’água faz um poço perigoso. Mas os meninos não têm medo. Jogam-se no buraco, vão ao fundo e voltam. Repetem a brincadeira várias vezes. Eu observo apreensiva, contando os segundos até que voltem. Também acampávamos nas margens do Rio Uruguai, num lugar chamado Cantão. Barracas bem montadas com o máximo de conforto possível. Lampião à querosene e tochas. Necessidades no mato. Insetos, muitos insetos. Fogueira com folhas de eucalipto queimando dia e noite. O melhor de tudo eram as enormes boias de câmaras de trator – verdadeiros barcos para as crianças.

 

Durante bons anos, as férias escolares eram ansiosamente esperadas pelos de lá e pelos de cá, excitados com o encontro anual dos primos. Lembro de termos ido, certa vez, meu irmão e eu, sozinhos para Uruguaiana, numa cabine leito do trem noturno. Pela manhã, um tio nos esperava na estação. Mas, na maioria das vezes, eu fazia baldeação no meio do caminho. Ficava em Santa Maria, para depois seguir viagem de carro com parte da família. Na cidade vizinha, Júlio de Castilhos, tinha primos da minha idade. Lá fizemos um passeio de bicicleta que quase terminou em tragédia. O mais novo se sumiu num atalho e chegamos em casa sem ele. Somente ao final do dia foi resgatado, caído na linha férrea, após ter despencado do barranco. As aventuras eram muitas e algumas terminavam em castigo.

 

Já adolescente, preferia ficar com os mais velhos em Santa Maria. Era meu deleite segurar a caixinha de maquiagem da prima, enquanto ela fazia caretas no espelho. Logo, vinha o namorado e iam para a boate. À noite, gostava quando a família colocava cadeiras no gramado para apreciar as estrelas. Três Marias, Cruzeiro do Sul; um céu de cidade de interior que a menina dos arranha-céus nunca tinha percebido. Numa árvore daquele jardim, gravei o nome do meu primeiro amor.

 

A verdade não é o tempo que passa, a verdade é o instante* que fica e deixa mais doces as lembranças do tempo passado.

 

 

 

*Rubem Braga, em O senhor.

 

Texto publicado em Há de ti, Rubem Braga, 2017.

 

Foto do arquivo pessoal.

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