Foi numa quarta-feira de cinzas, ao te ver abraçado com ela, que meu mundo desabou pela última vez. O momento aquele em que tudo ficou claro e comecei a entender além do que estava sendo mostrado. O tempo de falsa felicidade se apagou da memória naquele instante. Muitas vezes antes, feriste meu coração e te perdoei, porque não me achava capaz de seguir sem ti um caminho que não fosse sinuoso; sem saber que nenhum caminho seria mais difícil do que este que escolhi seguir ao teu lado de olhos vendados. Eu te amava e te temia. Fazia a caminhada mais difícil de minha vida num rumo desconhecido que só me fazia sofrer, mas algum dia alguém disse que amar era sofrer e eu ingenuamente acreditei. Estava viciada na droga do amor bandido e na droga que me vendia a ilusão de felicidade. Enfim acordei. Apesar do teu imenso esforço para me manter naquele torpor de amor e ódio, naquele ciclo de vai e vem, briga e volta, chora e ri, eu me libertei. Mantive em ti a ilusão de que me tinhas ainda, mas dentro de meu coração eu te detestei sem te temer, e senti que a vida era melhor* do que aquilo que tu estavas a me oferecer.
Tantas vezes fui traída e fechei meus olhos, tantas vezes me humilhaste e relevei, tantas vezes me obrigaste a fazer coisas que não queria e fiz sem questionar. Nunca me amaste, me mantiveste ao teu lado e sob teu domínio porque te convinha. Sou útil ao teu negócio, meu corpo te gera lucros. Engoli todos os sapos, matei todos os leões, fiz de tudo sem saber de nada. Mas, quando soube, me senti forte. Cresceu em mim o poder e tu diminuíste de tamanho aos olhos meus. Vi que podia te enfrentar. Vi que podia me vingar.
Não tenho experiência em assuntos de vingança. O bandido dentre nós és tu. Eu , só uma marionete em mãos de ferro. Vingança na tua boca soa diferente do que deseja meu coração aviltado. Não sei bater, só apanhar. Nem nunca quis aprender. Mas quero vingança. Por todos os males sofridos. Por aqueles tempos tortuosos, dos quais ainda nem bem me livrei. Minha mente já se libertou, mas meu corpo ainda te pertence.
Não sei como vou conseguir me livrar destas algemas, mas hei de rompê-las.
Não sei de que forma vou me vingar, mas hei de fazê-lo.
Sei que, um dia, vou ser bem feliz longe de ti.
Talvez seja mesmo esta a única vingança de que sou capaz.
*Rubem Braga, em O morto.
Texto publicado em Há de ti, Rubem Braga, Ed. Buqui, 2017.
Imagem gerada por I.A.
