Mergulhado em sono pouco profundo e nada reparador, o ruído do automóvel me estremece. Um ronronar suave e melancólico, capaz de me buscar onde mais distante eu estivesse. Sabia que era ela. Não demoraria a confirmação, com o arranhar da chave na fechadura. Seu estado etílico ainda guarda sobriedade, pois fecha cuidadosamente a porta de entrada. Vislumbro seus passos e gestos repetidos ao longo dos últimos meses, ora na minha imaginação, ora diante de meu olhar perplexo.
Esgueira-se pelas escadas, apoiando-se com a mão esquerda. E eu posso escutar o leve tilintar do metal da aliança contra o do corrimão. Dá meia volta e começa a descer. Sinto as suaves passadas na direção da cozinha, pisoteando meus pensamentos. Abre a geladeira e escuto barulho de vidro. Um banco é arrastado lentamente, mas ela não senta. Deve ter enganchado o pé distraído e cansado. O som do copo sendo descartado na pia e o clique do interruptor de luz me dão a certeza de que agora está vindo. Não ouço mais seus passos na escada. Deve ter retirado as sandálias e vem descalça. Mesmo assim, no meu doído silêncio interior, posso pressentir o estalar da madeira de cada degrau.
Penetra no quarto pela porta de correr entreaberta, que assim deixo de propósito, para espreitar cada instante de seu retorno ao lar. Caminha livre e leve pelo cômodo escuro; dirige-se ao banheiro. Diviso seu vulto na penumbra e quase não a reconheço. Apenas uma luz muito fraca se revela pelas frestas da porta mal fechada. Joga o colar e os brincos sobre a bancada de pedra. Percebo a água escorrendo no lavatório, em seguida, o farfalhar de suas mãos delicadas em alguma gaveta – à procura de um comprimido, talvez. Um tempo que se arrasta. Fecho meus olhos tristes e desassossegados. Por fim, a pequena luminosidade se desfaz. Ela está vindo em minha direção. As roupas escorregando pelo seu corpo torneado e firme, sendo deixadas sobre o tapete. Deita-se ao meu lado, nua, como de costume. Acomoda o pescoço de cisne no travesseiro de penas. Abafo em mim mesmo o desejo incandescente, e sigo meu teatro – finjo que durmo. Ela segue o seu. Noite após noite, semanas, meses. Ela vai continuar me torturando. E eu, engolindo minha culpa. Covardemente assistindo a decadência de um amor que eu mesmo destruí.
Texto publicado em Cobras na cabeça, Ed. Buqui, 2015.
Imagem gerada por I.A.
