Dr. Américo

Quando penso no meu avô – magro, alto e imponente – lembro de um cavalo de raça: um Campolina, de marcha regular, elegante e desenvolta. Sempre muito bem trajado, não abria mão do terno com colete. Quanto à bengala, acho que era puro charme. Foi o primeiro Dentista formado pela UFRGS. Orgulhava-se de dizer que tinha feito seu curso junto com alunos de Medicina, pois não havia outro acadêmico de Odontologia.

 

Era alegre e conversador. Vinha todos os domingos nos visitar e trazia um saco de balas para os netos. Sentava-se na sala e cruzava a perna, exibindo seus cascos bem lustrados. Passava a manhã toda com meu pai, ocupando-se do noticiário do Correio do Povo. Naquele tempo, o Correio era o principal jornal do Rio Grande do Sul, tinha o dobro do tamanho e da importância que tem hoje. Quando já tinham comentado tudo, sacava seu elegante relógio de bolso. Verificando que era hora de partir, pegava o chapéu e a bengala e saia a passo pela Cristóvão Colombo. Vivia distante de nós aproximadamente sete quadras. Passava pela antiga Cervejaria Bhrama, e pelo cinema Ipiranga, onde a gurizada trocava gibis nas matinées de domingo. Entre a Ramiro e a casa dele ficava a famosa Sorveteria Nevada, com seu enorme balcão gelado e aquelas cadeirinhas de plástico encostadas na parede. A abertura da Nevada prenunciava a chegada do Verão. No correr da Cristóvão, naqueles tempos, passava bonde, mas ele gostava de trotear na avenida, levantando o chapéu para cumprimentar as damas, exibindo a bela crina branca. Vez ou outra, um pit stop para algum comentário com velhos amigos.

 

Afora as balinhas da regular visita dominical, não demonstrava maior atenção ou afeto conosco; éramos apenas crianças. Mesmo assim, eu nutria por ele bons sentimentos, como orgulho e admiração – foi o único avô que eu conheci. Lembro dele marchando na areia da praia, todo paramentado, como um cavalo de milico em dia de desfile. Despertava a atenção dos banhistas seminus, gesticulando com sua bengala e ajeitando a aba do chapéu. Certa vez, em Tramandaí, ele soltou as pererecas que eu havia juntado numa caixa; bati os cascos de brava. Ele ria e dizia que os bichinhos eram da natureza.

 

Meu avô nasceu no ano em que foi abolida a escravidão no Brasil. Era, no entanto, um homem moderno. Acho que teria se adaptado bem aos nossos tempos: internet, smart tevê, redes sociais e celular. Se tivéssemos vivido mais no mesmo tempo e espaço, teríamos sido bons amigos. Hoje sei de quem herdei – ou copiei – certa altivez que me faz empinar a cabeça ou bater os cascos, conforme a ocasião.

 

 

 

 

 

Foto do arquivo pessoal.

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