O velho casarão que um dia pertenceu ao meu bisavô, o Conde Davos, ficava meio escondido dentro de um bosque. As paredes desbotadas confundiam-se com o amarelado das folhas naquele outono. Não havia movimento aparente no interior da casa. A noite caiu rápida, e tudo permaneceu na escuridão. Nenhuma luz, nem mesmo uma vela, denunciava se havia vida entre aquelas paredes. Decidi entrar mesmo assim. Minha mente ia enxergando coisas que meus olhos não podiam ver. Lembranças se acendiam em mim como se fossem lâmpadas. Eu saberia me orientar em cada peça, mesmo que já se tivessem passados mil anos.
Subi os três degraus que antecediam a grande porta de ferro e a empurrei firme, sentindo as mãos úmidas e um leve arrepio na nuca. Atravessei o primeiro salão às cegas, tateando os balcões de jacarandá. E fui direto ao antigo gabinete. Pela veneziana quebrada, uma luz transpunha a vidraça empoeirada, invadindo parte do aposento. A lua, sorrateira, difundia sua claridade como uma velha lamparina. Iluminaram-se os ponteiros do relógio. Passei as mãos sobre a escrivaninha áspera e percebi a terra que se acumulara ao longo dos anos.
Eu não estaria ali, naquela situação, não fosse o sonho da noite passada. O velho insistira para que eu fosse. E eu agia como se estivesse sendo teleguiado.
Não sei há quanto tempo aquilo tudo estava abandonado, não tinha memória daqueles tempos. Comentava-se, na família, que o Conde teve muitos filhos com muitas mulheres. Ele parecia ser muito rico, mas, quando morreu, descobriram que só tinha dívidas. Eram tantas que a propriedade foi confiscada pelo governo. A briga entre herdeiros e credores foi parar na justiça, arrastando-se por longos anos, geração após geração. Parece que foi na minha geração que a questão perdeu a importância.
Eu entendia que aquele sonho me trouxera uma missão, mas não sabia qual era. Continuava ali parado, olhando para o nada. Então, personagens começaram a passar diante de mim, como se fosse um filme. Vi criadas carregando pilhas de roupas, e uma linda mulher pisando com leveza os degraus da escada. Pensei que estava ficando louco. Nunca tinha estado naquele lugar antes, mas conhecia cada detalhe da imponente residência. E as imagens passavam diante de mim como fantasmas.
O velho insistiu para que eu viesse. Procure o relógio de parede no gabinete, ele me disse. Aqui estou, e vou até o fim.
Parece que o tal relógio balançou o pêndulo pela última vez às nove horas e três minutos, de um dia qualquer de um passado distante, que eu pensava que não me pertencia. Comecei a apalpá-lo lentamente na esperança de encontrar a resposta. Corri a mão pelo vidro e tive a impressão de estar repetindo um gesto corriqueiro. No meio da escuridão, eu continuava vendo pessoas passando pelos cômodos da casa. Fui acometido por uma leve tontura e pensei que fosse perder os sentidos. Foi como se saísse do meu corpo: me vi ali naquele mesmo lugar, numa outra época, erguendo aquela parede atrás do relógio. Aquilo tudo, que antes me parecia irreal, começou a fazer sentido. Passei a agir com determinação. Forcei o relógio de um lado para o outro, até que ele se desprendeu. Tirei o canivete do bolso e comecei a raspar a parede alucinadamente. Já com bolhas nas mãos pude ver o brilho delas. Estavam lá as minhas barras de ouro, exatamente onde as escondi quando ainda era o Conde.
Imagem gerada por I.A.
