As amarelinhas

Desce sobre mim um sono feito de todas as desilusões.

 

Antônio Maria

 

A primeira tomei por indicação médica, para conseguir relaxar depois do funeral.

 

A segunda, porque sabia que sem o filho – único elo entre nós – você me abandonaria.

 

A terceira engoli de raiva, lembrando das humilhações a que me submeti em nome da harmonia familiar.

 

A quarta foi para esquecer que ainda te amava, apesar de tudo. Somente por ti e contigo a vida poderia fazer algum sentido depois da tragédia.

 

A quinta tomei pela rasteira que levei no trabalho, enquanto me distraía cuidando de ti e do nosso filho.

 

A sexta tomei pensando em quantas dívidas fizemos para tratar o filho amado, as quais nunca teremos como pagar.

 

A sétima e a oitava foram juntas, para homenagear o pai e a mãe de merda que eu tive.

 

Quando algo dá errado na vida adulta, inevitavelmente olhamos para trás, procurando as causas no passado.

 

Mas foi só quando ingeri a nona que vi passar o filme do abandono, da casa de passagem e da adoção aos 12 anos.

 

E tomei mais uma para engolir a lembrança dos maus tratos na casa nova.

 

Enquanto escrevo, tomo a décima primeira e a décima segunda. Jogo a cartela vazia no lixo do banheiro.

 

Nunca tomei tantas antes. Será o fim, ou apenas o vexame de uma tentativa frustrada?

 

Não pensava em morrer. Apenas dormir, dormir, dormir muito até que pudesse usufruir da leveza do abandono de mim mesma. Que me viesse um sono pesado, tão pesado que nem a dor maior do mundo me pudesse despertar.

 

Meus membros estão se amolecendo e o cérebro assume uma lentidão etérea.

 

Estou na beira do penhasco, o que me resta senão saltar? O vazio do fundo reflete o que sou hoje. Nada, nada mais do que nada.

 

Aqui já tive tudo e tudo perdi.

 

Mais uma cartela com doze amarelinhas.

 

 

 

Texto publicado em Maria volta ao bar, Ed. Buqui, 2014.

 

Imagem gerada por I.A.

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