O envelope pardo

Eram sete e meia da manhã. Juarez foi ao jardim abrir a caixa de correspondência, seu ritual diário.  Arrastava os chinelos e exibia pela fresta da camisa do pijama mal abotoado aquela barriga branca e deformada. As calças sempre ameaçando cair. Os meninos da vizinhança se divertiam fazendo apostas e chacotas. Pegou o jornal, apalpou cheio de má vontade o fundo da caixa e sentiu que havia mais uma papelada. Recolheu.

 

— Levar pra Dona Patroa, deve ser conta pra pagar – murmurou para si mesmo.

 

Fora um bom marido e melhor pai ainda, até que uma doença grave o tirou do mercado de trabalho. Aposentado, vestiu o pijama, calçou os chinelos e nunca mais prestou para nada. Os filhos, já crescidos, tomaram seu rumo, e Dona Patroa, como ele a chamava, continuou levando a vida. Era corretora de imóveis e passava os dias a mostrar casas e apartamentos. Ganhava o suficiente para pagar as contas e ainda sobrava para alguns supérfluos. O benefício que Juarez recebia do governo dava para pagar o plano de saúde – hospital público, nunca mais! – e também os remédios que não eram tão caros.

 

Entrou em casa, jogou a correspondência sobre o balcão da cozinha e se arrastou até o sofá. Ligou a tevê num canal de desenho animado, abriu o jornal na página de esportes, leu uns dez minutos e adormeceu de boca aberta. A baba escorria sobre o rosto do técnico do time adversário. Parecia vingança pelo timão ter tomado quatro gols na noite anterior.

 

Em seguida, a diarista chegou e começou a arrumar a cozinha. Viu a correspondência sobre o balcão e deu uma fuxicada:

 

— Hum! Carta do banco, cartão de crédito, conta da luz. Carnê de IPTU, aposto como já tá atrasado e… Ops… O que será isto?

 

Estranhou aquele envelope amarelo com o nome do patrão escrito em letra de forma. Virou, não tinha nada escrito atrás. Apalpou, sentiu que era firme. E já ficou imaginando fotos depravadas de sua patroa com inúmeros amantes, em poses indecentes, enviadas para Seu Juarez. Suou frio, sem saber se era de medo ou inveja. Automaticamente enfiou a carta na última gaveta, misturada aos antigos cadernos de receitas, nunca usados. Espiou pela porta e viu o velho desacordado sobre o jornal. Tratou de colocar o serviço em dia e esquecer aquele assunto, pelo menos por enquanto.

 

Varreu, limpou, fez comida para ela e Seu Juarez. E a carta? Deu ração para o cachorro, recolheu as fezes, juntou o lixo. E a carta? Não conseguia parar de pensar. Se ela estivesse certa, aquela carta não poderia ser aberta pelo velho. Ou ele ia enfartar de vez, ou ia matar a patroa. Em qualquer caso, ela sairia perdendo. Sem o patrão doente, não precisariam de diarista na casa. Com a patroa morta e o patrão na cadeia, muito menos. Tomou banho, trocou de roupa, apanhou seu dinheiro na gaveta do criado-mudo, conforme combinação entre elas, e se preparava para sair, quando viu Seu Juarez abrindo as gavetas na cozinha. Gelou. Correu e perguntou o que ele queria. Despachou o velho com rapidez e solicitude. Resolveu esperar a patroa, para lhe entregar pessoalmente a carta. Mas, como ela demorou muito, teve que ir embora, pois tinha duas crianças para buscar no colégio.

 

Quando voltou à casa, na sexta-feira seguinte, foi diretamente à gaveta das receitas. Estava vazia. Atônita, dirigiu-se à sala; tudo parecia tranquilo. Seu Juarez assistia ao seu desenho preferido e o jornal descansava no braço do sofá. Sobre a mesa do telefone, um bilhete manuscrito pela patroa:

 

Lúcia,

 

Decidi esvaziar algumas gavetas e queimar coisas antigas, fora de uso, como as receitas que eram da mamãe. Aproveitei para fazer também uma limpeza no escritório do Juarez. Queimei tudo na churrasqueira. Por favor, retira as cinzas e deixa bem limpa, pois vou fazer um churrasco com o pessoal da imobiliária à noite. Teu dinheiro está no mesmo lugar (coloquei um extra). Obrigada e bom fim-de-semana.

 

Ana Maria

 

 

 

 

 

Imagem gerada por I.A.

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