Aqui vejo coisas que mente humana jamais viu
Aqui sofro frio que corpo humano jamais sentiu
(Vinicius de Moraes)
Ela perambula pela vida. Parada em qualquer esquina, pede dinheiro ou atenção. Não tem casa, não tem família, não tem privacidade nenhuma. Alguns motoristas abaixam o vidro e lhe oferecem moedas; outros lhe viram a cara. Adolescentes gritam das janelas da van escolar xingamentos quase inaudíveis de tão misturados às gargalhadas. Ela não se importa. Abre aquele sorriso, e mostra os dentes escurecidos pela pobreza. Pensa em todos os abusos que já viveu e nem sofre mais por isto. Ninguém sabe o que vai dentro daquele peito doído. O coração já não pulsa como antes. Está mais tranqüilo agora. As emoções sumiram. Mesmo assim, ri à toa. Deve ser isto que tanto intriga as pessoas que passam nas suas esquinas.
Um dia a moça da caminhoneta vermelha parou do outro lado da rua e lhe fez sinal. Perguntou se ela estaria disposta a falar sobre sua vida. Riu mais do que o normal. Vida? Que vida, moça? A minha? Sim, a dela mesma. A moça perfumada queria saber das mazelas de Maria. De acordo. A jovem estacionou. Foram até a lancheria do Neto, onde comprava, sempre que podia, um cigarro avulso. A moça pediu média com pão e manteiga para as duas. Neto olhou com desconfiança. Ela pagou adiantado, para não deixar dúvidas. Pegou um caderninho e uma caneta. Maria perguntou se não ia usar gravador. A moça sorriu e disse que preferia anotar, pois não se tratava de uma entrevista. Não era jornalista. Era escritora. Queria saber como viviam as pessoas que não têm casa para morar, pois estava escrevendo um livro, cujo tema era o abandono – os párias da sociedade.
Maria foi contando sua história.
Fugira de casa aos 13 anos. Desde então rola que nem pedra. E por falar nisso, nunca fumou pedra, sabe que é perigoso. Toma uma pura quando está muito frio, mas se orgulha de dizer que não tem vícios. Albergue? Ah, não vale a pena, é cheio de regra. Tem que toma banho, tem que levanta cedo. Só quando está muito cansada, ou com medo. Medo de quê? De tudo, ora. Na rua um tem que cuida do outro. Dormem em bando. Conta que uma vez viu uns caras botando fogo nas cobertas de um vizinho. Por sorte ele não estava debaixo. Tinha se levantado pra mijar. Outra vez, numa noite muito fria, passaram de carro e jogaram um balde d’água com gelo nela. Mas tem gente boa também. Tem uma turma que passa de Kombi e distribui sopa E tem outra que traz coberta. Mas a maioria passa bem longe, tem medo e nojo.
A moça do caderninho se admira de como Maria fala bem. Ela esclarece que sabe ler e escrever direitinho. Enquanto morava com a mãe, ia à escola regularmente. Se não fosse, a família não recebia ajuda do governo. Foi até a sexta série e era boa aluna. Estava no começo da sétima quando precisou fugir. A mãe cheirava demais. Arranjou um cara para morar com a gente. Eram duas peças. Dormiam todos no mesmo quarto. Ele não perdia a oportunidade de se esfregar na menina. Passava a mão entre suas pernas na hora da refeição. A mãe fazia que não via. Quando a barriga da mulher ficou muito grande, ele disse que atrapalhava e que não conseguia dormir. Quiseram que ela trocasse de cama com a mãe. Como se recusasse, apanhou do padrasto. Deitou-se com ele, ferida e acuada. Entendeu como aquilo ia terminar. Na madrugada, enquanto eles dormiam, fugiu. Isto já faz muito tempo, moça, e nem gosto de me lembrar.
Conta ainda que, algumas semanas depois, uma professora a encontrou vagando pela rua. Levou-a para casa, alimentou-a e quis devolvê-la à mãe. Fugiu de novo.
Para não correr risco de ser encontrada, veio de carona com um freteiro para a Capital. Ele lhe ofereceu um canto para dormir. Parecia um homem bom. Pensou que ia ser feliz. Ficaram juntos por pouco tempo. Logo, ele começou a bater nela. De lá para cá, nunca mais confiou em ninguém. Dorme com um olho fechado e o outro aberto. Mesmo assim, nunca deixou de ser alegre. Gosto mesmo é de cantar. Queria cantar na televisão. Arrumava os dente e botava até um vestido. Casa dela? Não, nunca teve. Teve um canto na casa de uns e outros. Mas, na verdade, gosta mesmo é da rua. Já se acostumou. Quando algo ou alguém lhe perturba, muda. Sempre foi assim. Mudando e fugindo, fugindo e mudando. Viver é perigoso em qualquer lugar, moça. E onde tem parede é mais difícil de fugir.
Texto publicado em Moraes da história, Ed. Bestiário, 2012.
Imagem gerada por I.A.
