Ela tinha olhos miúdos e pouco expressivos, de um castanho cão, escondidos atrás dos óculos a maior parte do tempo. Somente bem mais tarde, quando fez cirurgia de catarata, deixou de ser dependente deles. Pudemos, então, prestar mais atenção ao brilho de seus olhos. Eram tristes, mas vivazes.
A miopia nunca foi impedimento para que enxergasse bem perto e também ao longe.
Com olhar atento, criava obras de arte em crochê, tricô, costura e até arriscava pintura em porcelana.
Criava as filhas para o estudo e o trabalho; não, para o casamento e as prendas. A visão ao longe.
O tempo lhe impingiu muitos castigos. Perder um filho, o pior de todos. Mas houve outro muito doloroso: o glaucoma. Pelos erros do outros, ficou cega. Indo ao oftalmologista regularmente desde a adolescência, descobriu glaucoma em estágio avançado com quase setenta anos, quando trocou de clínica. Seguiu à risca o tratamento, mas o que estava perdido não tinha volta.
Bem idosa, quando sua visão e suas mãos já não eram firmes para as artes, distraía-se assistindo aos canais de televisão que mostravam lugares distantes, animais selvagens e silvestres, reformas de casas e desfiles de modas. Enchiam-lhe os olhos pardos.
Também gostava de revistas, livros e jornais. Não todos. Era fiel ao jornal Correio do Povo, assinante desde muito antigamente. Olhos astutos e curiosos, que o tempo e as falhas alheias se encarregaram de tirar o brilho e a cor. O foco foi-se fechando; a íris, desbotando. Pelo descaso das profissionais cuidadoras na administração dos colírios, o foco se fechou de vez. Manteve-se meses com as pálpebras cerradas, na recusa da aceitação. A mente foi ficando cada vez mais confusa.
Era dia ou era noite?
De quem era mesmo aquela voz?
E este lugar?
Estava dentro ou fora?
Na sua casa ou na minha?
Quando, enfim, entregou-se de vez ao desconhecido, reabriu os olhos. Eles tinham brilho outra vez, e não eram mais castanhos, eram azuis. Um lindo par de olhos azuis que só enxergavam o lado de dentro.
Foto do arquivo pessoal.
