A peça era tão delicada e a mãe tinha tal apego que a mantinha exposta na cristaleira da sala. Intocável. Dizia que não combinava com nossa casa velha e suas crianças arteiras. Um galheteiro com base em prata trabalhada, tal qual uma saia de renda. Meus olhos de criança enxergavam uma bailarina, com sua haste comprida de acabamento arredondado fazendo as vezes de corpo e cabeça. Dos cinco frascos de vidros facetados, já faltava um. Não entendia aquele costume da mãe de guardar objetos como se fossem tesouros inalcançáveis. Assim também era com o jogo de chá que foi da vó, o prato de doce com pezinhos dourados, a colcha branca de tricô e outras preciosidades.
Já que não ia mesmo usar, cedo ela começou a repartir os bens de afeto com os filhos. E, para mim, entre outros objetos, tocou o galheteiro, que seguiu a tradição e se manteve imaculado na minha cristaleira. Descobri, na fase madura, que a gente acaba por repetir comportamentos antes criticados nos pais. Aprendizado ou imitação, não sei bem, mas é fato. Como a mãe, durante anos, eu achei que minha mesa com pratos de porcelana barata não combinava com aquela peça tão delicada.
Outras relíquias eu até usava em datas especiais, como o prato de pezinhos dourados, presente em todos os aniversários. Por fim, me dei conta de que estava perpetuando o destino do pobre galheteiro, condenado a brilhar para sempre através do vidro opaco de um guarda-louça qualquer. Ele merecia mais. E eu também. Para tirá-lo desse castigo, decidi procurar, na Feira de Antiguidades, uma peça que se adequasse e substituísse o saleiro que havia sido quebrado anos atrás.
Enrolei um exemplar, cuidadosamente, em plástico bolha, guardei na bolsa e convidei minha irmã para me acompanhar na busca. Não era tarefa fácil, mas estava disposta a investir nisso. Depois de andarmos para lá e para cá e ver todo o tipo de objetos antigos e quinquilharias, não havia chance de uma peça igual. O melhor que conseguimos foi um galheteiro completo de inox, cujos frascos se pareciam com os meus. Tive que comprar o conjunto todo, porque não separavam as peças.
Já em casa, experimentei um a um para ver qual preencheria melhor o espaço deixado vazio por décadas. Encaixavam, mas não combinavam. Qualidade muito inferior. Por fim, optei pelo frasco baixinho e discreto, que não era o ideal mas não acentuava a desarmonia.
Depois de limpo e lustrado, finalmente o galheteiro da família passou a fazer parte da minha mesa de jantar. Se combina com minha casa velha e meus pratos? Não sei. Sei que não tenho mais crianças desastradas. E garanto que estamos bem felizes agora.
Nos reabilitamos, ele e eu.
Foto do arquivo pessoal.
