Pendurou a vida no varal.
Começou lavando as dores da alma. Aderidas ao tecido, relutavam em se soltar. Ela as esfregou com firmeza na tábua do tanque até que cedessem. Enxaguou na água salgada de todas as lágrimas fluídas. Torceu com força até purgar cada gota, para que não ficasse vestígio dos dias difíceis que vivera. Sacudiu bem e colocou ao sol.
Depois, mergulhou as dores do corpo em água com vinagre, para que soltassem as fibras A água ficou rubra. Jogou fora e mergulhou em água limpa, onde diluiu produto para tirar manchas difíceis. Ainda, por segurança, colocou para quarar numa mistura de bicarbonato de sódio com água oxigenada. Ao fim do processo, após vários enxágues e uma torção vigorosa, estendeu as peças, uma a uma, com orgulho do resultado obtido.
Lavou também, com verdadeiro pesar, cada peça que vestiu com soberba e preconceito, ou com rancor e desejo de vingança. Tinham todas as cores e tamanhos e já não lhe serviam há anos, mas, por algum motivo, restavam no fundo do armário. Estas nem precisaria ter lavado, pois não voltaram ao lugar de antes. Deixou que secassem e as jogou na churrasqueira.
Limpar as nódoas do coração foi a tarefa mais difícil. Saiam as manchas, mas o tecido não voltava ao normal. Após muito esforço, entendeu que as fibras tinham sido danificadas e decidiu acolher o dano, ao invés de combatê-lo. Colocou de molho em amaciante com pétalas de rosas brancas. Por último, torceu delicadamente e deixou que terminassem de escorrer ao lado das outras, até que o sol da manhã absorvesse todas as lágrimas derramadas por amor.
No varal estendidas, todas as peças pareciam novas, impecavelmente limpas. Porém, algumas, de forma imperceptível aos olhos alheios, mantinham as discretas cicatrizes nas fibras. Mas, isso tornara-se um segredo entre ela e o passado.
Texto inspirado na imagem acima, da fotógrafa Cristiane Dapont Mari.
