Anoiteci

Entardeci na estrada, sob um céu de nuvens escuras e esparsas. Não pude ver o sol baixar por detrás dos morros. Mas estava lá, cumprindo o último rito daquele dia entre nós. É certo que, no oposto do nosso desiluminado mundo, ele estava, no mesmo instante, dando início a um novo dia. Novo de alegrias e esperanças. Assim é desde sempre.

Todos os dias, inúmeras pessoas, como eu, se emocionam com este espetáculo rotineiro. Para cada um de nós é um ocaso diferente, porque o colorido do céu nunca é igual, assim como as cores dos nossos sentimentos, que variam conforme alegrias e tristezas do dia. Meus sentimentos, naquela ocasião, estavam com as nuances harmoniosas da felicidade.

O anoitecer na estrada escura não teve céu de fogo, como é conhecido o rastro que o sol deixa no seu último suspiro. Mas teve um morro inteiro estrelado. Luzinhas aqui e acolá, lembrando os quase extintos vaga-lumes da minha infância. Ou, sendo mais clichê, lembrando um bordado de lantejoulas. Alguns brilhos em sequência formavam um debrum no contorno dos morros. Foi uma visão encantadora.

Caiu a noite na estrada de asfalto

Bem como na estrada da vida. 

Meu despertar foi há muitos anos.

Vivi manhãs esplendorosas.

Aproveitei as tardes por inteiro.

Anoitecida, vivo a apreciar estrelas.

 

Texto inspirado na imagem acima, do fotografo Phil Devries.

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