Só amenidades

Olho a fotografia e vejo um carro antigo. Da década 1950, talvez. Lembro bem de modelos semelhantes. Meu pai teve um Austin, não exatamente este, mas parecido. Eram comuns na minha infância. Morávamos em um bairro movimentado, onde circulavam muitos veículos. Os carros daquela época, os que me lembro no momento, eram DKW, Gordini, Dauphine, Aero Willys, Sinca Chambord e o famoso Fusca. São os mesmos que atraem os colecionadores hoje. É estranho pensar que sou tão antiga quanto carros colecionáveis.

Também tinha uma linha de bonde. Andei muito neles. Pegava na Cristóvão Colombo, próximo da Bhrama — hoje transformada em um shopping — e desembarcava logo adiante, antes da curva dos bombeiros. Por ali moravam meu avô, tias e primos. Não reparei se os bombeiros ainda estão na curva. Enquanto a Brahma existiu e morei no bairro lá foi meu local de votação. Quando fui mesária, a empresa colocou à nossa disposição um freezer lotado de refrigerantes. Na Cristóvão, praticamente em frente a cervejaria, ficava o Grupo Escolar Marechal Floriano Peixoto, onde meus irmãos e eu estudamos. Lembro de uma árvore imensa no pátio. Mais tarde foi ampliado e mudou-se para a rua lateral. Devem ter cortado a árvore. Próximo de nós, porém em direção ao centro, já na Avenida Alberto Bins, era a sede da SOGIPA, onde eu fazia ginástica olímpica. Tenho até medalhas daqueles tempos.

Tinha eu doze anos quando os bondes foram totalmente substituídos pelos ônibus. Teve também, em algum momento, ônibus elétricos, os trólebus, mas desses não tenho grandes memórias. Ou duraram muito pouco, ou não existiram no meu bairro. Da mesma época era o cinema Ypiranga, perto de casa, aonde íamos todos os fins de semana, assistir filmes e trocar gibis. Fiz a primeira e única comunhão na Igreja Santa Terezinha, da Ramiro Barcelos. Lá se casou minha irmã e lá batizei meu filho. O Bairro Floresta era muito rico naquele tempo. Um lugar bom de morar. Depois foi tomado por estabelecimentos comerciais de dia e prostitutas e travestis de noite. Uma pena. Não sei qual é a situação do bairro hoje.

Em algum lugar da foto dá para ver o que parece ser uma pessoa em chamas. Mas disso não vou falar porque meu filho diz que meus textos são muito tristes.

 

Texto inspirado na imagem acima, capa do álbum de estreia da banda americana Rage Against the Machine, 1992.

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