Manhã transfigurada

A mulher acorda lentamente, regressando da letargia que se segue a uma espetacular noite de amor e sexo. Ainda sonolenta, tateia o espaço ao lado, em busca do corpo morno. Senta-se rapidamente na cama, em sobressalto. O vazio causa-lhe um pequeno arrepio. Então, pensa que ele deve ter ido à padaria; sabe que ela gosta do pão fresco para o café da manhã. Dá uma espreguiçada gostosa e vai até a cozinha pegar uma maçã. Volta para o quarto, joga-se na cama e põe-se a ler o jornal, enquanto espera seu retorno. Notícias boas alegram sua manhã. O movimento Diretas Já  cresce no país. Após tantos anos de repressão, parece que, finalmente, o Brasil vai voltar a ser um lugar bom para viver. Talvez seja a hora de pensar em filhos. Thomás já quer há tempos,  mas ela vem adiando. Espera um momento politico e econômico mais favorável. Ainda carrega no peito  dor de ter amigos desaparecidos. Primeiro na escola e, depois, na universidade pública, onde conheceu o marido, participou de muitos protestos contra o regime. Nem todos tiveram a sorte de sobreviver para contar a história.

Levanta-se e olha pela janela, aflita com a demora dele. Na esquina da avenida, avista, ao longe, uma movimentação atípica. Franze os olhos, como se isso lhe permitisse enxergar melhor. Tem a impressão de que há uma ambulância estacionada perto. “Que triste, parece que alguém foi atropelado “. Volta ao jornal, pensando em quantas mortes poderiam ser evitadas no trânsito se as pessoas fossem mais atentas. Tanto os pedestres como os motoristas. Ao ler uma notícia sobre o avanço da AIDS no Brasil, fica preocupada, afinal, tem alguns amigos gays. As pesquisas sobre a doença ainda eram muito incipientes. Uma buzina forte a tira da concentração. A curiosidade a leva de volta para a janela. Vê que a multidão foi afastada e, agora, mesmo longe, pode visualizar o que parece ser um corpo coberto com um lençol. “Mais um que vira estatística de  trânsito. Sem demora, Thomás chegará ,aflito, relatando o acidente.”

Ainda está paralisada pela visão do corpo coberto no chão, quando o telefone toca. “A essa hora da manhã de sábado,  só pode ser minha mãe, voltando da feira. Adora fazer propaganda das ofertas.” Tem vontade de deixar tocar até que ela desista, mas não o faz. Atende. Ouve de uma vizinha pouco cuidadosa que o marido foi atropelado em frente a padaria.

– Thomás?

 Derruba o telefone.

– NÃO!

O grito sai como uma rolha, deixando escapar todo seu conteúdo. Esvaziada, sente seu corpo amolecer e derreter sobre o tapete do quarto, ainda repleto do cheiro e do calor do corpo dele.

 

Texto inspirado na imagem acima, capa do álbum clássico At Jazz at the Philharmonic, Billie Holliday, 1954.

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