Odeio ovo

Nos anos 1960,  eu era uma criança magrinha e pálida. Além disso, muito enjoada para comer. Meus pais, preocupados, me enchiam de fortificantes e fórmulas para abrir o apetite. Como nada adiantasse, o pai me impôs a dieta do ovo: todos os dias uma gema crua, em um copinho de pinga, com um dedinho de leite. Tinha que engolir inteira, como se fosse uma cápsula. Eu odiava aquele ritual. Felizmente, antes que eu chegasse ao ponto de encarar uma briga com o pai, a ciência execrou meu inimigo e ele reconsiderou a dieta. A única forma que eu gostava de comer ovo era na gemada. Como o açúcar ainda não tinha condenação por crime contra a humanidade, a mãe batia para mim até ficar branquinha e aerada. Definitivamente, nunca gostei, nem frito, nem cozido, nem quente e, muito menos cru. Só em preparos onde não sinta seu gosto, tipo bolos e pudins. Atribuo essa rejeição à dieta da infância. Minha mãe também não suportava nem o cheiro. Contou-me que, quando engravidava, o marido e o sogro lhe impunham ovos em quase todas as refeições. Felizes ficamos quando o  inimigo comum foi banido em nossa casa.

Anos depois, a sentença foi revista. Novos indícios levaram a investigações mais profundas. Reabriram o inquérito. Apresentaram provas cabais. E veio a absolvição. A mãe e eu  ficamos assustadas, mas o sogro dela já era falecido. E meu pai já não apitava mais jogo. Seguimos com o absoluto direito de continuar rejeitando o superalimento fornecido pelo fiofó da galinha.

De lambuja, deixo uma receitinha top:

Um ovo, uma colher de sopa de açúcar, uma pitada de sal, três colheres de sopa de leite, três colheres de sopa de óleo, três colheres de sopa de fubá, duas colheres de sopa de amido de milho (Maizena) e uma colher de sopa de fermento de bolo.

Mistura bem todos os ingredientes e joga numa frigideira pequena, untada, em fogo baixo e tampada. Deixar cinco minutos de cada lado.

Se não tiver amido de milho, pode usar só fubá.

Vai bem com café preto. Outro que já foi condenado e, depois, absolvido. Desse eu gosto bastante.

 

Texto inspirado na imagem acima, capa do álbum It’s Blitz!, 2009, da banda de rock alternativo americana Yeah Yeah Yeahs.

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