Encontra-se comigo um pobre caderninho azul que tem escrita na capa a palavra endereço e dentro está todo sujo, rabiscado e velho.* Juntei na beira da calçada, caído bem próximo de um bueiro. São tantas anotações sem sentido em páginas encardidas e amassadas. Entre nomes de homens e mulheres, nenhuma página perfumada que levante a suspeita de pertencer a uma dama. Deve ser de um homem velho e amassado também. Com maus hábitos de higiene.
Encontra-se comigo um pobre caderninho azul. Preciso muito saber de quem é, pois alguém deve estar sofrendo a perda, procurando aflitivamente por este objeto malcheiroso que somente a ele pode interessar. Preocupa-me a falta que lhe pode estar fazendo. Se for mesmo de um velho, com fraca memória, não deve saber onde foi que perdeu.
Encontra-se comigo um pobre caderninho azul. Nem sei por onde começo a procurar seu dono. Nas igrejas, nos bares, nos pontos de ônibus e trens. De onde será o proprietário deste objeto tão antiquado e pessoal? Talvez pertença a um daqueles idosos que passam as tardes na Praça da Alfândega, a jogar dominó e espiar por cima dos óculos as pernas roliças das meninas do Colégio das Dores. Com fixação em mulheres e jogos, eles fumam e falam de todas as passantes inocentes. A tal cadernetinha que era para conter só endereços, contém rabiscos e desenho de mulher nua.
Encontra-se comigo um pobre caderninho. Preciso achar quem perdeu, e que seja logo, pois consta anotação de consulta com urologista para amanhã – ao lado do novo endereço, bem abaixo do velho que foi riscado. Na letra K tem um arremedo de poema, tão garranchudo que mal dá para entender. Logo abaixo da Kelly. Aposto que não fez poesia para sua senhora; deve ter sido para uma das raparigas que se oferecem sob as folhas alaranjadas do outono da praça. Matronas generosas que recebem notas pequenas por afagos em público.
Encontra-se comigo um pobre caderninho. Por onde andará o desleixado proprietário desta coisa ancestral e desbotada? Farei plantão no banco duro de madeira, me deixando confundir com uma rapariga, até que surjam os jogadores de dominó. Tenho certeza de que lá vou localizar quem procuro. Deve ter o mesmo cheiro de naftalina que exala do caderninho, chapéu de feltro desbotado e pinta de galã anacrônico.
Encontra-se comigo. Preciso de ajuda para devolver as memórias do velho.
*Rubem Braga, em Procura-se.
Texto publicado em Há de ti, Rubem Braga, Ed. Buqui, 2017.
Imagem gerada por I.A.
