Nunca tive bicho de estimação

Pelo menos por vontade própria.

Quando criança, meu irmão mais velho tinha um cão. Bambi montava nas minhas pernas, se esfregando de forma obscena. A mãe gritava com ele. Meu irmão se dobrava de rir, enquanto eu chorava. Tive que aprender a lidar com o malandro e evitar abusos, já que viveu conosco por longos anos. Tentando me agradar, ou agradar a si mesmo, o pai comprou uma porquinha-da-índia. Chamou de Chica-Cuíca e disse que era minha. Nunca me interessei por ela.

A irmã caçula adorava cachorros e queria juntar todos das ruas. Nossa mãe era habilidosa em dissuadí-la. Lembro que teve uma pequinês chamada Lolita; viveu na casa até morrer de velha. Foi doação de uma vizinha idosa, que já não podia cuidá-la. Também uma vira-latas chamada Carolina, que acabou sendo entregue aos cuidados de um amigo do pai que tinha chácara. Pouco tempo depois, foi sacrificada, pois torturava os habitantes do galinheiro. Culpa do pai, que alimentava a cusca com pés de galinha enquanto morava lá em casa. Também tivemos um ou dois gatos, porque a mãe gostava.

Quis o destino que me apaixonasse por um cachorreiro. No início, morando em apartamento e trabalhando fora todo o dia, consegui conter os instintos dele. Chegou ao cúmulo de adotar um cão e pedir que um casal amigo o criasse. Ia todos os fins-de-semana visitar e levar ração.

Quando, enfim, compramos terreno para construir nosso lar, a primeira habitante foi Vitória, Vivi para os íntimos. Com a casa pronta, passou a morar conosco o enteado, que precisava de um cão para chamar de seu. Então veio a Brisa, uma boxer tão à toa, que não prestava nem para cuidar dos filhotes. Nós a mantínhamos presa na hora de amamentar , às vezes, entretanto, acontecia que o bicho escapava; então descia a escada velozmente*, arrastando oito crias nas tetas.

O cachorreiro da família morreu. Mudamos para um apartamento. Brisa encontrou um novo lar, onde foi muito mais feliz. Vivi passou uma temporada com parentes no sítio. Em pouco tempo, retornamos para casa e a trouxemos de volta. Os filhos crescidos tinham outros interesses: festas, viagens, namoros, trabalho. Sem a Brisa e com os meninos sempre fora de casa, Vitória se sentia muito só. Fui me penalizando e me culpando por não ser uma boa companheira. Então, adotei a Nina Rosa.

Vivi morreu no Inverno passado, aos 14 anos de idade, todos vividos com minha família. Foi duro. Sofri com a senilidade dela. Descobri que era mais do que uma cachorra. Suas cinzas ainda estão no armário da sala, esperando a hora de se juntarem às do chefe da matilha. Ficamos Nina e eu – ambas solitárias -, mas não pretendo adotar mais ninguém. Teremos que nos bastar daqui para a frente.

* Rubem Braga, em Histórias de Zig

Foto do arquivo pessoal.

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