Ultimo voo

Já perdi muitas pessoas próximas; alguns desfechos acompanhei de perto, outros, não. Um tio dizia que queria inscrição na lápide: aqui jaz Fulano de Tal, muito contrariado. Outro parente deixou claro que não aceitava ser entubado. Alguém me disse que não queria flores na despedida, só música boa. Desejos fáceis de atender. Já uma prima que estava residindo no Rio de Janeiro quis que suas cinzas fossem jogadas no Rio Uruguai. Demorou mais de ano para reunir a família e realizar a cerimônia. Meu marido dizia: façam o que quiserem com meu corpo. Vou estar morto mesmo.

 

Últimos desejos pós morte sempre oneram terceiros. Melhor realizá-los em vida, sejam primeiros ou últimos.

 

– Não quero morrer sem conhecer o Taj Mahal.

 

– Antes de morrer quero realizar um cruzeiro.

 

– Meu último desejo é que meus filhos façam as pazes (já terceirizou).

 

– Quero realizar o sonho de me formar, nem que seja aos 80 anos.

 

– Quero viver para ver o Brasil ser um país justo (almejou a vida eterna).

 

E por aí segue a lista de desejos e sonhos a realizar de cada um.

 

Sempre ouvi a mãe dizer que não poderia morrer sem ver os três filhos formados. Pois os netos já conquistaram o diploma e ela ainda está por aqui. Várias vezes me pego pensando a esse respeito. O que eu não quero morrer sem ter feito ou visto?

 

Durante algum tempo, achei que fosse me soltar das amarras e fazer uma longa viagem. Ou  voar de asa-delta. Ou sentir outra vez o tremor da paixão. Me frustra não ter aprendido a nadar quando jovem; quem sabe ainda dá tempo?! Envelhecer no Nordeste (detesto frio).

 

Seriam bem variadas as possibilidades do meu último desejo.

 

Somente há pouco, me dei conta de que a única coisa que realmente importa é que eu morra em atividade, deixando projetos incompletos. Que alguém precise assumir meu lugar e lamentar minha partida. Que eu deixe crônicas inacabadas, negócios em andamento, um encontro não realizado. Uma lista de filmes por ver e um livro pela metade na mesa de cabeceira.

 

Que eu não morra em vida e, sim, com vida. Útil.

 

Entretanto, não nego que gostaria de minhas cinzas jogadas do alto do Morro da Borússia, se terceiros quiserem me dar a alegria do último voo.

 

 

 

imagem gerada por I.A.

 

 

 

 

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