Cabelinho de anjo

Os jardins da minha infância tinham plantas que pouco vejo nos dias de hoje. Até isso parece que segue moda. A vizinha da direita tinha uma com florezinhas pequenas cor de rosa, cujas pétalas arrancávamos para fazer unhas postiças; cada uma exatamente do tamanho de nossos dedinhos miúdos. Me achava quase adulta com as unhas coloridas. Duas casas adiante, um pequeno arbusto dava uma florzinha que não me lembro bem como era, só que tinha uma parte compridinha no miolo, que a gente chupava e era bem docinho. Para alguém formiga como eu era uma festa. Na loja de automóveis do outro lado da rua, um imenso jardim cercado por uma planta bem comum, que se usa para cercas porque é espinhenta e pode ser moldada em formatos diversos. Na loja, ela era retangular, formando um murinho baixo e largo. Lá nos divertíamos muito, pulando a cerca de um lado para o outro, às vezes caindo na grama. Os porteiros, em geral, eram camaradas e  faziam vista grossa para nossa brincadeira. Às vezes, algum mais severo nos botava a correr. No pátio dos fundos da nossa casa, havia uma pereira que não era nossa e, sim, da vizinha da direita, e só dava peras ruins; deve ser por isso que cresci sem gostar de pera. Passo reto por elas no mercado.

 

Nosso jardim era muito feio porque não tinha planejamento algum. A mãe ia ganhando mudas e jogando nele de qualquer jeito, então os canteiros eram recheados de plantas de vários tipos, umas bonitas e outras muito feias. Sem muitos cuidados, podas ou adubos, era quase um mato. Sempre sonhei ter um jardim bonito, planejado, com plantas escolhidas e bem cuidadas. Venho me esforçando há anos para realizar o sonho, mas já vi que não é fácil. Mais difícil do que criar animais domésticos. Elas tem vida própria e, como tal,  são cheias de manias. Uma bebe muita água, outra se irrita se coloco água sem ela pedir; uma adora o sol de verão, outra só quer sombra fresca; uma ama estar dentro de casa, outra murcha de tristeza. Uma vive de teimosa, resistindo ao frio, ao calor, a geada, chuva e ventanias; outra exige alimentos e cuidados especiais. Umas são comestíveis, outras venenosas. Dizem que existem as carnívoras, mas eu não sei, nunca vi. Umas são limpinhas e caprichosas; outras soltam folhas, sementes ou frutinhas pelo chão, fazendo muita sujeira. Umas atraem insetos do bem; outras insetos do mal. Umas são perenes e não exigem nem poda, enquanto outras se enchem de inços e morrem todo ano. E quando decidem se suicidar, não importa o que eu faça: mais água, menos água, adubo, inseticida, poda, mais sol, menos sol. Nada! Definham até morrer. Indecifráveis sentimentos possuem estas bichinhas.

 

Cabelinho de anjo era o nome de uma planta especial que me acompanhou durante toda a infância. A mãe cortava seus galhos e os colocava no vaso da sala, complementando com margaridas e outras flores do campo de que ela gostava. Não sei o verdadeiro nome, não sei se mais alguém conhece por cabelinho de anjo, ou se foi invenção da mãe para homenagear o filho. Lembro de uma tia sempre dizer que ele tinha virado anjo, então no meu faz de conta eram os cabelinhos dele, mesmo sabendo que não eram, pois havia, dentro de um álbum, um cachinho castanho bem claro guardado com carinho.

 

Dia desses – faz anos,  mas parece que foi ontem – andando pela rua, dei de cara com ela, aquela plantinha cheia de sentimentos da infância que nunca mais tinha visto. Deu uma emoção forte, aquela sensação de déjà-vu. Precisei arrancar um galhinho, que guardei dentro do caderno que carregava comigo. Já em casa, fotografei e coloquei como imagem de fundo do meu notebook. Gosto de abrir o note, olhar para ela e me imaginar de volta aos tempos dos cabelinhos de anjo nos jardins da Santo Antônio.

 

 

 

Foto do arquivo pessoal.

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